Senhora

Escrita por José de Alencar e publicada em 1875, a obra conta a história de amor entre Fernando Seixas e Aurélia Camargo, estruturando-se em torno de quatro eixos: preço, quitação, posse e resgate.

O romance tem como personagem principal Aurélia, uma jovem simples que encantava a todos com sua beleza. Sua mãe, Emília, era uma humilde costureira que se casara com o médico Pedro Camargo, filho bastardo do rico fazendeiro Lourenço de Sousa Camargo, a quem o médico ainda não conhecia. Após conhecer seu pai, como este não aprovava sua relação com Emília, e sem coragem de enfrentá-lo, Pedro limita-se a mandar cartas amorosas à esposa e dinheiro para o seu sustento.

Depois de um ano, Pedro e Emília se reencontram. Durante o período em que ficaram separados nascera Emílio, o primeiro filho do casal, que Pedro só veio a conhecer aos dois meses de idade. A partir de então, Pedro passa a encontrar a esposa periodicamente, vivendo algumas semanas com ela e outras não. Nasce, então, a segunda filha, chamada Aurélia.

Longe do pai de seus filhos, Emília leva uma vida suspeita e obscura. Porém, conta com o apoio do marido, que sustenta a família e educa bem os filhos.

Após doze anos ao lado da esposa, no entanto, Pedro é apresentado a uma jovem de quinze anos, filha de um rico fazendeiro, com quem Lourenço deseja que o filho se case. Insatisfeito com a proposta de seu pai, Pedro se esconde em um rancho, onde acaba falecendo de febre cerebral. Antes da morte, o médico pede a um tropeiro que entregue três contos de réis a Emília, que perde a alegria de viver com a notícia de sua viuvez.

Os anos se passam e Emília leva sua vida na companhia dos filhos, até que o filho mais velho falece. Com o fato, a mãe passa a se preocupar com o destino da filha – não quer deixar a jovem desamparada quando ela também falecer – e insiste que a moça fique na janela a fim de arrumar um pretendente. Aurélia satisfaz o desejo da mãe e acaba conquistando muitos admiradores, mas apenas um grande amor: Fernando Rodrigues Seixas.

Seixas é um rapaz de poucos recursos que abandonara o curso de Direito em São Paulo para trabalhar como jornalista no Rio de Janeiro. Ficara órfão de pai aos dezoito anos e desde então vivia apenas com a mãe e duas irmãs. A família levava uma vida simples, pois vivia apenas do aluguel de dois escravos, da costura e do pouco que Seixas recebia por seu trabalho, mas o jovem não abria mão de frequentar as festas da sociedade.

Apaixonados, Aurélia e Seixas começam a namorar e logo o rapaz resolve pedir a mão da jovem em casamento, mas acaba ficando constrangido com a condição financeira de Aurélia, muda de ideia e rompe a relação com a bela moça, pois sabe que com o casamento teria que deixar de lado as festas da sociedade.

Nesse meio tempo, Eduardo Abreu, rapaz rico e de boa família, encanta-se com a beleza da menina e pede sua mão em casamento. Sabendo que a filha ama Seixas, Emília resolve questioná-lo sobre suas intenções em relação a Aurélia, mas ele, mesmo sabendo do interesse de Abreu pela garota, resolve perdê-la e casar-se com Adelaide por um dote de trinta contos de réis. Aurélia recebe, então, uma carta anônima, na qual estava escrito que Fernando Seixas a havia trocado por um dote, o que deixa a jovem bastante infeliz.

Meses depois, perto de falecer, o avô paterno de Aurélia, o rico fazendeiro Lourenço de Sousa Camargo, resolve assumir a neta e, após sua morte, deixa sua herança para a moça, então com dezoito anos de idade. Emília falece mais ou menos na mesma época e a tutela de Aurélia é entregue ao irmão de sua mãe, Sr. Lemos, com quem Emília havia cortado relações há bastante tempo. No entanto, a moça prefere viver na companhia de uma parente viúva, D. Firmina Mascarenhas, que a havia amparado quando ficara sozinha no mundo. O Sr. Lemos, então, passa a ser convocado esporadicamente apenas para resolver problemas sem importância.

Embora mais jovem que D. Firmina, Aurélia é quem comanda a casa. A velha senhora é apenas uma espécie de “mãe de encomenda”, expressão utilizada para não chocar aqueles que se opõem à emancipação feminina.

Rica, Aurélia passa a frequentar os bailes da alta sociedade e, ainda desiludida com o rompimento de sua relação com Seixas, acredita que os rapazes só se interessam por sua beleza e por sua fortuna. É aí que a jovem confere ao Sr. Lemos a missão de conseguir-lhe um casamento com Fernando Seixas.

Mesmo sem conhecer a noiva, Seixas aceita a proposta (o dote seria de cem contos de réis) e recebe um bom adiantamento por isso. Ao ser apresentado a Aurélia, Fernando Seixas sente, ao mesmo tempo, profunda humilhação, pois há algum tempo havia rompido o noivado com a jovem para ficar noivo de Adelaide, com quem acabara não se casando, e uma imensa alegria, pois na verdade ainda a amava.

Para Aurélia, porém, o casamento era visto como uma vingança. Na noite de núpcias, após a declaração de Fernando, Aurélia lhe entrega o resto do dote e lhe chama de homem vendido. A partir daí eles passam a viver um casamento de aparências, dormindo em quartos separados e tratando-se com sarcasmo e ironia, embora na frente dos outros desfilem de mãos dadas e troquem gentilezas. Seixas se vê como um escravo da esposa, satisfazendo todos os seus desejos.

Certa noite, durante um baile, Aurélia desmaia e Seixas a leva para o quarto. Nesse momento, quase ocorre uma reconciliação, mas o jovem, sem querer, acaba ofendendo sua esposa e os dois voltam para o baile e para sua vida de aparências e ironias. Ao final da festa, cada um vai para o seu quarto e Aurélia, concluindo que Fernando realmente a ama, quase vai ao seu encontro, mas volta a ter receio de que esteja errada e abandona a ideia.

Alguns dias depois, Seixas, que abrira mão dos luxos que sempre desejara e passara a trabalhar dedicadamente, recebe o dinheiro que havia ganhado com um investimento e pede para conversar com sua esposa. Após o jantar, os dois vão para o quarto dela, onde o jovem lhe entrega um cheque no valor do dote que ela havia lhe dado pelo casamento, mais vinte contos de réis, que ele havia juntado trabalhando como funcionário público e com o lucro do investimento. Declara-se, então, livre, pois havia devolvido o dinheiro com o qual ela o havia comprado, e pede o divórcio.

Considerando-se dois estranhos, eles se despedem, mas antes que ele saia Aurélia confessa todo o seu amor e afirma que agora, sendo estranhos, eles podem esquecer o passado e viver o amor que sentiam um pelo outro. Ao ouvir a declaração, Seixas beija sua esposa e o casal se reconcilia.

De repente, porém, o jovem hesita, pois Aurélia continua portadora de uma grande fortuna, enquanto ele não possui dinheiro algum. A jovem, então, mostra-lhe seu testamento, escrito no dia do casamento, no qual deixa toda a sua herança para o marido, e os dois, assim, consumam efetivamente o casamento.