São Bernardo

Publicado em 1934, São Bernardo é considerado um dos livros mais ilustres de Graciliano Ramos, onde o autor retrata o conflito entre o capitalismo e o socialismo, o amor e o ciúme, a solidariedade e a solidão. Narrado em primeira pessoa, o romance tem como personagens centrais Paulo Honório (narrador) e Madalena. Ele, um homem movido pelos bens materiais. Ela, uma professora primária dedicada aos assuntos sociais.

Honório era um homem pobre do sertão, abandonado pelo pai ainda na infância, da qual pouco se lembrava. Recordava-se apenas da época em que era guia de um cego e da doceira Margarida, que o acolhera, a quem chamava de “preta velha”.

Certa vez foi preso por esfaquear João Fagundes por causa de uma antiga amante, Germana, a “cabritinha sarará”. Na prisão, com a ajuda de um companheiro de cela, aprendeu a ler através da Bíblia. Aprendeu também a matemática – queria sair daquele lugar e ganhar dinheiro, por isso os números eram tão importantes. Não queria ser roubado!

Depois de sair da cadeia, Paulo Honório percorreu o sertão fazendo pequenos negócios, até se instalar em Alagoas, onde já havia trabalhado na enxada. Anos antes, naquele mesmo lugar, viu um ex-patrão viver de economias para fazer do filho, Luis Padilha, um doutor. O homem, porém, acabou falecendo e o filho não seguiu na profissão sonhada pelo pai.

Chegando à fazenda de Padilha, Honório viu no rapaz grandes possibilidades de enriquecimento, já que ele era um jogador compulsivo. Queria para si as terras em que havia trabalhado e logo se tornou amigo de Padilha. Em pouco tempo Honório já havia emprestado dinheiro ao filho do ex-patrão, que, sem conseguir quitar a dívida, viu-se obrigado a entregar-lhe a fazenda São Bernardo.

Astucioso e desonesto, Honório não hesitava em amedrontar ou corromper para conseguir o que desejava. Via tudo e todos como objeto, cujo único valor era o lucro que poderia lhe gerar.

Após assumir o comando da fazenda, teve problemas com o vizinho Mendonça, antigo rival dos Padilha, devido aos limites de suas terras. Logo depois dos primeiros desentendimentos, Mendonça foi morto enquanto Paulo Honório estava na cidade conversando com o padre Silveira sobre a construção de uma capela em sua fazenda. Depois disso, novas fronteiras foram estabelecidas.

Com Honório no comando a fazenda São Bernardo entrou em um período de progresso. Esperto, ele diversificou as criações, invadiu terras vizinhas, construiu o açude, uma capela, e até mesmo uma escola para obter favores do Governador. Padilha foi chamado para ser professor, função pela qual recebia muito pouco, assim como todos os outros empregados do capitalista.

Paulo Honório tornou-se um homem importante, influente, e emprestava dinheiro aos outros. Certa vez, por negar um empréstimo, teve seu nome publicado no jornal, acusado de ser o mandante do assassinato de Mendonça. Indignado, reagiu com agressividade, assegurando que não tinha nenhuma relação com aquela morte, e logo a situação foi apaziguada.

Com o progresso da fazenda, Honório começou a pensar em se casar e ter um herdeiro. Procurava uma mulher da mesma forma que tratava seus empregados: como se fosse um objeto. No início, idealizava uma mulher morena, perto dos trinta anos, e a que melhor se enquadrava nesse perfil era Marcela, a filha do juiz, mas acabou conhecendo Madalena, uma moça loura, professora da escola normal, a quem começou a cortejar. O capitalista mostrou-lhe as vantagens do negócio (o casamento) e ela aceitou a proposta, levando consigo para a fazenda sua tia Glória. O casamento, contudo, nunca andou muito bem.

O casal tinha pensamentos opostos e logo começaram os desentendimentos. Enquanto Honório era autoritário e não se interessava pela pobreza dos trabalhadores, Madalena tinha ideais socialistas. Ele acreditava que ela logo se acostumaria a seu estilo de vida, mas Madalena era uma mulher humanitária, de opiniões próprias, e não concordava com o modo com que o marido tratava os empregados.

Madalena foi a única pessoa que Honório não conseguiu transformar em objeto. Sentindo que a esposa fugia de suas mãos, o fazendeiro passou a ter ciúmes mórbidos de sua mulher, que começou a sofrer repressão, ofensas e humilhações do marido.

Em meio à confusão que era o casamento dos dois, Madalena engravidou e teve um menino. Paulo Honório não sentia nada pelo bebê – ao contrário, irritava-se com seu choro. A pobre criança não era amada pelos pais e vivia solta na fazenda.

Os ciúmes de Honório se tornaram cada vez mais intensos, chegando a tal ponto que ele passou a acreditar que sua esposa mantinha caso com todos os homens, ao mesmo tempo em que se sentia um bruto, um homem impossível de ser amado por ela. Com a confusão armada dentro de casa, a situação se tornou demasiadamente tensa. O marido vivia suas dúvidas em relação à esposa e por causa disso passava as noites em claro. Odiava também a tia de Madalena, que seguidamente dormia a chorar.

Sem aguentar a pressão do marido, Madalena acabou se suicidando. Glória resolveu ir embora da casa e Paulo Honório deu a ela os ordenados que ficara devendo a sua esposa. O capitalista foi tomado por um imenso vazio depois da morte de Madalena, cujas lembranças não saíam de seus pensamentos, e a partir daí as coisas começaram a regredir em São Bernardo.

A Revolução de 30 dificultou os negócios de Honório e levou a fazenda à ruína. Logo as produções de São Bernardo perderam o valor, os empregados abandonaram o local e os amigos não frequentavam mais a casa do capitalista. A pedreira foi fechada, os animais foram morrendo e se escasseando, os bens cultivados deixaram de ser colhidos, pois o trabalho não valia a pena.

Sozinho, o personagem central vê tudo destruído à sua volta e toma consciência de que destruiu não apenas a sua vida, mas também a das pessoas que o rodeavam. Na solidão (nem o filho tinha, pois não o amava), resolve escrever sua história. Refletindo sobre sua trajetória, conclui: “A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu alma agreste”.