Quincas Borba

Quincas Borba pode ser considerado uma continuação da primeira obra realista de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, embora as histórias sejam completamente independentes. Publicado originalmente como folhetim na revista A Estação entre os anos de 1886 e 1891, e com foco narrativo em 3ª pessoa, Quincas Borba relata a vida de Pedro Rubião de Alvarenga, enfermeiro particular e amigo do filósofo Quincas Borba, adotando como tema central a loucura despertada no personagem através de um processo que ativa fatores ocultos.

Ao falecer vítima de infecção pulmonar, Quincas Borba deixa toda a fortuna herdada de seu último parente para Rubião. Este, então, troca a pacata vida provinciana de Barbacena pela agitação do Rio de Janeiro, levando consigo o cão do filósofo, também chamado Quincas Borba, de quem deveria cuidar, sob pena de perder a herança (aliás, não se sabe se o nome do livro se deve ao filósofo ou ao cachorro).

A caminho do Rio de Janeiro, Rubião conhece no trem o casal Sofia e Cristiano de Almeida e Palha, que logo percebe a ingenuidade do rico provinciano. Atraído pela afeição do casal e sobretudo pela beleza de Sofia, Rubião passa a frequentar sua casa, confiando cegamente nos novos amigos. Palha, porém, revela-se um esperto comerciante e passa a administrar a fortuna de Rubião, aproveitando para tirar-lhe parte dos lucros.

Com o passar do tempo, Rubião sente-se cada vez mais atraído por Sofia, que ao mesmo tempo encoraja-o a se aproximar e mantém em relação a ele uma certa distância. Seu amor se torna tão grande que ele acaba revelando seus sentimentos para sua amada, mas, para seu espanto, Sofia recusa seu amor e acaba contando o fato a seu marido.

Interessado na fortuna de Rubião, contudo, Palha continua mantendo com ele relações de amizade. A ingenuidade de Rubião, na verdade, o torna presa fácil não apenas para Palha e Sofia, mas também para outros interesseiros e oportunistas que dele se aproximam para explorá-lo financeiramente.

Sem ter seu amor correspondido, Rubião começa a enlouquecer, à semelhança do que ocorrera com Quincas Borba. Este, porém, enlouquecera porque era um gênio e tanta inteligência não lhe cabia na cabeça.

Já na rua da amargura, Rubião cinge uma coroa que só ele vê e, depois de dois minutos de agonia e um trejeito horrível, morre, sozinho, abandonado por todos, menos por Quincas Borba (cão), que adoece em seguida, chorando a morte do dono, e acaba morrendo também.

Assim, Rubião termina sua vida como exemplo da teoria humanitista criada por Quincas Borba, e por ele explicada da seguinte maneira: “Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a outra e recolhe os despojos […]. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”.

Em outras palavras, para o humanitismo a vida é um campo de batalha em que só os mais fortes sobrevivem. Os fracos e ingênuos como Rubião são manipulados e aniquilados pelos mais espertos, como Palha e Sofia, que, no final, estão vivos e ricos.

Ao narrar a trajetória de Rubião, Machado de Assis retrata em Quincas Borba as disputas pelo poder político e pela ascensão econômica, projetando um quadro bastante crítico das relações sociais da época.