Memórias de um Sargento de Milícias

A bordo de um navio que vinha de Lisboa para o Rio de Janeiro, Leonardo Pataca e Maria das Hortaliças se encontraram e se apaixonaram. Ao ver a bela moçoila, Leonardo Pataca passou próximo a ela e, fingindo-se despercebido, deu-lhe uma pisadela no pé direito. Em resposta, Maria das Hortaliças, também com ar de disfarce, deu-lhe um beliscão nas costas da mão esquerda. No dia seguinte, a pisadela e o beliscão se repetiram, dessa vez um pouco mais forte, e no dia seguinte os dois já estavam tão amantes e familiares que pareciam sê-lo há muito tempo. Sete meses depois, inevitavelmente, nasceu Leonardo, um menino extremamente arteiro e herói desta narrativa.

No Brasil, Maria das Hortaliças passou a trair seu marido, e ele, ao descobrir a traição, chutou o filho para fora de casa e deu uma bela surra em sua mulher, o que a fez fugir para Lisboa com seu amante, capitão de um navio. Expulso de casa, Leonardinho foi viver com seu padrinho, um barbeiro “bem-arranjado” que planejou fazê-lo padre e iniciou o menino na leitura e na escrita precariamente, para depois mandá-lo à escola. O garoto contava também com a ajuda de sua madrinha, uma parteira e “papa-missas” que o visitava regularmente.

Na escola, o menino sempre aprontava e acabava apanhando por mau comportamento. Depois que passou a ir à escola sozinha, o pequeno Leonardo se tornou o maior matador de aulas de sua turma – ao invés de ir ao colégio, ia para a igreja fazer bagunça com seu amigo Tomás, então coroinha. Afeiçoado pelo menino, o padrinho fazia vistas grossas às suas malandragens. Na imaginação de Leonardo, ele poderia aprontar ainda mais se virasse coroinha da igreja, e pediu para seu padrinho que o fizesse. O barbeiro, achando que o garoto se interessava pela igreja, o fez alegremente, mas logo o menino foi expulso em função de suas artimanhas. Como coroinha, Leonardo vingou-se de uma vizinha que não gostava dele e expôs publicamente o caso que o reverendo mantinha com uma cigana.

Embora a narrativa se concentre na vida de Leonardo-filho, na primeira parte do livro são relatadas também algumas trapalhadas de Leonardo-pai. Este, metido em problemas amorosos com a cigana com quem o reverendo tinha um caso, foi preso em um ritual de fortuna (macumba) pelo major Vidigal, temida autoridade policial da época de D. João VI. Como não havia polícia organizada na cidade, o major era o “juiz absoluto”: ele fazia o que queria com os criminosos sem prestar contas a ninguém. Com a ajuda de um tenente-coronel que lhe devia favores, porém, Leonardo Pataca conseguiu sua soltura.

Já rapaz, Leonardo (filho) levava uma vida de vadio. Ele e seu padrinho passaram a frequentar a casa de D. Maria, “a velha rica das demandas”, que tinha uma sobrinha de nome Luisinha, por quem Leonardo se apaixonou. Em meio a essa paixão, porém, apareceu um rival, José Manuel, que se utilizava de todos os artifícios para conquistar Luisinha. Para ajudar o afilhado, a madrinha de Leonardo tomou parte na briga e inventou uma mentira para que José Manuel perdesse a moral que tinha com D. Maria. Depois de algum tempo, contudo, a mentira da madrinha foi revelada e José Manuel, com a ajuda de um velho e cego mestre de reza (um professor de oração, que ensinava a criadagem da casa a rezar), ganhou a mão de Luisinha em casamento. Pouco tempo depois, porém, José Manuel mostrou-se um mau caráter de verdade.

Nesse meio tempo, o padrinho de Leonardo (filho) faleceu e ele passou a viver com o pai, Chiquinha (sobrinha da comadre de Leonardo Pataca, com quem este havia se casado), uma meia-irmã já nascida e a parteira. No entanto, Leonardo não se dava bem com a madrasta, e em certa ocasião, depois de ir à casa de D. Maria e não encontrar Luisinha, o rapaz entrou em briga com a esposa de seu pai, que, defendendo-a, ameaçou o próprio filho com uma espada. Leonardo, então, fugiu pela rua e, depois de andar um bocado, acabou encontrando Tomás, seu amigo de infância, e outros amigos deste, entre os quais estava Vidinha, que lhe despertou uma nova paixão.

Leonardo foi então viver na casa de seus novos amigos. Lá viviam duas irmãs senhoras, uma delas mãe de três rapazes, e a outra mãe de três moças, uma das quais namorava Tomás. Dois dos rapazes eram apaixonados por Vidinha, mas como ela demonstrava mais interesse por Leonardo do que por eles, os mesmos armaram para que Leonardo fosse preso pelo major Vidigal em uma patuscada (festa familiar) por vadiação. Antes de chegar à cadeia, porém, Leonardo conseguiu fugir.

Com medo de que o afilhado fosse preso novamente, a madrinha de Leonardo arranjou-lhe um emprego na ucharia-real, o depósito de mantimentos do rei, mas logo ele foi despedido por ter se aproximado da mulher de um toma-largura, como eram chamados os criados do rei. Ao saber de tal acontecimento, Vidinha, enciumada, foi até a ucharia a fim de fazer um escândalo, e ao perseguir a moça para fazê-la desistir da ideia, Leonardo acabou sendo novamente preso por Vidigal, que o fez granadeiro de sua patrulha.

Depois de ser preso Leonardo não apareceu mais na casa onde morava, e a família de Vidinha, assim como a própria moça, por não o terem mais encontrado, passaram a odiá-lo por ter sumido sem deixar lembrança alguma àqueles que o acolheram.

Mesmo ligado à tropa de Vidigal, Leonardo continuou a ser o malandro de sempre. Certa noite, armando a prisão de Teotônio, um piadista, o major mandou Leonardo a uma casa onde Teotônio animava uma festa de batizado. Leonardo ficaria no batizado para facilitar a captura, enquanto Vidigal e seus homens ficariam na porta esperando o piadista sair. Sentindo-se um traidor, porém, Leonardo armou um plano com Teotônio para ajudá-lo a fugir, mas como Leonardo ficou contente demais com o sucesso da fuga, acabou se denunciando e o major prendeu-o novamente. Ao saber de tal acontecimento, a madrinha de Leonardo e D. Maria, após se reconciliarem, foram até Vidigal pedir que o libertasse, mas não conseguiram convencê-lo.

As duas senhoras foram então pedir ajuda a Maria Regalada, uma antiga paixão de Vidigal. Embora as três não tenham conseguido convencê-lo, ao conversar em particular com o major Maria Regalada disse-lhe que se libertasse Leonardo aceitaria morar com ele, como lhe pedira várias vezes. Com tal proposta, Vidigal acabou libertando Leonardo e ainda prometeu uma surpresa.

Depois de algum tempo casada Luisinha ficou viúva, e para a surpresa de todos, no dia do enterro de José Manuel, Leonardo apareceu como sargento. A partir daí Leonardo voltou a frequentar a casa de D. Maria e a paixão entre ele e Luisinha reapareceu. Tanto a madrinha de Leonardo quanto D. Maria concordavam com o casamento dos dois, mas havia um empecilho: o posto de sargento, que impedia Leonardo de se casar. As duas senhoras, então, recorreram novamente ao major Vidigal, que, vivendo feliz com Maria Regalada, cedeu de bom gosto e fez de Leonardo um Sargento de Milícias, a quem o casamento era permitido. Após o casamento, Leonardo Pataca (pai) e D. Maria vieram a falecer.

Escrito como um romance de folhetim e considerado o primeiro romance urbano brasileiro, Memórias de um Sargento de Milícias foi publicado pela primeira vez em capítulos semanais no jornal Correio Mercantil, do Rio de Janeiro, entre junho de 1852 e julho de 1853, sem a indicação do autor. Posteriormente, a história foi publicada em livro (primeiro volume em 1854 e segundo volume em 1855), com a autoria creditada a “Um Brasileiro”. O nome de Manuel Antônio de Almeida só apareceu na terceira edição, já póstuma, publicada em 1863.