Iracema

Iracema era uma jovem e bela índia de cabelos negros e lábios de mel, filha de Araquém, um índio dotado de sabedoria e liderança, pajé da tribo dos tabajaras. Certo dia, enquanto se banhava em um rio, percebeu que estava sendo observada por um estrangeiro que havia se perdido de seu amigo enquanto caçavam, a quem a índia atacou com uma flecha. A expressão do estrangeiro, chamado Martim, foi tal que Iracema percebeu a mágoa que lhe tinha causado, e os dois acabaram se perdoando e seguindo para a tribo da índia, onde Martim se hospedou. Os dois jovens logo se apaixonaram, mas o amor entre eles era proibido, já que Iracema era a “virgem de Tupã”.

Certa noite, Iracema levou Martim ao bosque da Jurema e deu a ele uma bebida que o fez adormecer, possibilitando-o rever em sonhos seus melhores momentos e suas esperanças. Em seus sonhos, Martim chamou por Iracema, que, assustada, deixou-o ali e foi embora. No retorno para a tribo, Iracema encontrou Urapuã, o chefe dos guerreiros tabajaras, apaixonado pela bela índia, que, tendo visto Martim sair com a virgem, procurava-o para matá-lo, acreditando que Iracema havia se entregado ao estrangeiro. Embora Iracema tenha negado, Urapuã jurou matar o rapaz. A índia, então, voltou ao bosque para vigiá-lo.

Ao acordar pela manhã, Martim viu Iracema na entrada do bosque e percebeu sua tristeza. Como o amor entre os dois era impossível, ele resolveu partir.

Como a vida de Martim corria perigo, Iracema foi até a tribo dos pitiguaras, inimigos dos tabajaras, procurar um grande guerreiro amigo de Martim, chamado Poti, que foi ao encontro do estrangeiro para ajudá-lo na fuga. A jovem índia aconselhou-os a partir durante a festa da lua das flores, pois todos estariam envolvidos com a celebração e não prestariam atenção em Martim. Enquanto esperavam o dia da festa, Iracema e Martim ficaram juntos e Tupã acabou perdendo sua virgem.

Na hora da fuga, Iracema acompanhou Martim e Poti, e quando eles já estavam fora das terras tabajaras e a índia deveria voltar para sua tribo, ela resolveu seguir com o estrangeiro, pois não conseguiria mais viver longe de seu amor. Os três acabaram sendo alcançados pelos guerreiros tabajaras, que haviam seguido o rastro dos fugitivos, dando início a uma batalha em que Iracema lutou contra os membros de sua tribo. Ajudados pelo cão de Poti, que os guiou até seu dono, os guerreiros da tribo pitiguara chegaram a tempo de combater seus inimigos e socorrer Martim, Poti e Iracema.

Durante algum tempo, a tristeza por ter traído sua tribo perturbou Iracema, mas Martim conseguia deixá-la feliz. O casal se instalou em uma cabana próxima a outros índios, tribos de pescadores e caçadores. Lá Iracema e Martim viviam felizes, principalmente depois da notícia de que a índia estava esperando um filho do estrangeiro. Martim acabou transformando-se em um grande guerreiro da tribo dos pitiguaras e passou a chamar-se Coatibo.

Como guerreiro, Martim começou a sair com os pitiguaras para as batalhas, e quando ficava sozinha Iracema se entristecia, sentindo saudades de sua família e de sua pátria. A índia ficava ainda mais triste quando via nos olhos de seu marido que ele também sentia saudades de sua terra natal.

Em um de seus regressos, Martim (agora Coatibo) encontrou Iracema com seu filho recém-nascido nos braços, a quem chamaram Moacir (na língua de Iracema, filho da dor). Pouco tempo depois Iracema faleceu de fraqueza, pois durante a ausência do marido perdera o apetite e as forças.

O estrangeiro, então, sem motivos para continuar em meio aos índios, voltou para sua terra natal, levando seu filho e a saudade da fiel companheira, e prometendo um dia retornar, como de fato fez depois de alguns anos, acompanhado de outros homens brancos e um sacerdote de sua religião, para com ele fundar a Mairi (refúgio) dos Cristãos e levar a palavra do verdadeiro Deus à terra dos selvagens. Poti, seu fiel amigo, foi o primeiro a adotar a religião.

Após retornar a sua antiga morada, Martim lutou novamente ao lado dos pitiguaras, e com emoção lembrou dos momentos que passara naquelas terras com sua amada Iracema.

Considerado um dos mais belos romances da literatura romântica, a obra é descrita por Machado de Assis como um “poema em prosa”. Baseado em uma lenda do período de formação do Ceará, Iracema traz como uma de suas características o nacionalismo romântico, manifestado na exaltação da natureza pátria, no retorno ao passado histórico e na criação de um herói nacional (o índio), e compõe, juntamente com O Guarani e Ubirajara, a chamada trilogia indigenista.