Inocência

Escrita por Visconde de Taunay, Inocência relata a vida do povo sertanejo, abordando como tema central o amor proibido entre Cirino e Inocência. A história se passa no sertão do Paranaíba, no estado do Mato Grosso, e tem início em julho de 1860.

Caipira de São Paulo e criado em Ouro Preto, no estado de Minas Gerais, Cirino Ferreira dos Campos tornou-se médico não por formação, mas pela experiência. Aos 18 anos foi trabalhar como caixeiro em uma farmácia, onde aprendeu a receitar, e a partir dali passou a fazer excursões pelo interior do país. Moço de presença agradável e ar inteligente, viajava com seu cavalo sem destino, medicando aqueles que precisassem de seus cuidados.

Em uma de suas viagens pelo sertão do Mato Grosso, o jovem “doutor” conhece Martinho dos Santos Pereira, um homem de 45 anos, gordo, bem disposto, que gostava de prosear. Pereira tinha os cabelos brancos, o rosto expressivo e franco. Era um homem severo, que não trocava sua palavra nem pela própria vida. Nascido em Minas Gerais, casou-se cedo e viveu em Diamantina até a morte da esposa; depois se mudou para o Mato Grosso, onde passou a morar em uma fazenda na companhia da filha, Inocência, e sob os cuidados de Maria Conga, a escrava responsável pelos afazeres domésticos.

Em meio à conversa com o viajante, Pereira resolve convidá-lo para se hospedar em sua tapera – assim, “Dr.” Cirino, como era chamado, poderia cuidar de sua filha, que estava com uma “febre braba”. O jovem aceita o convite, mas esclarece ao novo amigo que não era um médico de verdade, e sim uma espécie de curandeiro.

Inocência era uma jovem de 18 anos, cabelos longos e pretos, nariz fino e olhos matadores. Estava comprometida por determinação do pai com Manecão Doca, um tipo criado no sertão com índole violenta. Ao conhecer sua mais nova paciente, Cirino fica encantado com sua beleza. Com a convivência, acaba se apaixonando pela moça, mas procura disfarçar seus sentimentos diante da jovem e de seu pai.

Hospitaleiro, Pereira hospedara também em sua fazenda um naturalista alemão chamado Guilherme Tembel Meyer, que caçava borboletas e as enviava à Europa para serem estudadas. Igualmente surpreso com a beleza de Inocência – desconhecendo, contudo, os costumes do interior –, ao conhecer a moça o estrangeiro fizera-lhe elogios, deixando Pereira bastante irritado. Intrigado com a conduta do alemão, Pereira passa a vigiá-lo inclusive durante as caçadas. Por outro lado, deposita toda a sua confiança em Cirino, que aproveita a situação para declarar seu amor a Inocência. Também apaixonada, a bela jovem faz o mesmo, dando início à trama central da história.

Com receio de enfrentar a fúria de Pereira, os jovens amantes começam a namorar às escondidas, transformando o laranjal em um local de encontros proibidos. Além de Pereira, Cirino e Inocência precisam despistar o anão Tico, uma espécie de guarda da moça, mudo, mas bastante fiel ao patrão.

Temendo a chegada de Manecão Doca, o casal resolve pedir ajuda ao padrinho de Inocência, Antônio Cesário. Cirino, então, parte para Minas Gerais, onde morava o compadre de Pereira, e lá chegando pede a Antônio que os ajude. Antônio Cesário promete pensar no assunto e encontrar o viajante na vila de Santana do Paranaíba no prazo máximo de oito dias, caso resolvesse ajudá-los, para irem juntos à casa de Pereira. Enquanto isso, Manecão é recebido com festa na fazenda do futuro sogro.

Já Inocência demonstra tristeza e parece adoentada com a chegada de seu prometido. Pereira a chama para conversar com o noivo, mas ela, revoltada, diz ao pai que não concorda com o casamento. Inconformado com a atitude da filha, o fazendeiro perde o controle e a agride.

Irritado com a situação, Pereira atribui ao alemão a culpa por tanta desgraça. O anão Tico, contudo, que testemunhara o amor de Inocência e Cirino, assegura ao patrão ser este o verdadeiro responsável pela confusão. A notícia deixa Pereira extremamente furioso, mas o rude Manecão o acalma e, após, sai à procura do viajante, encontrando-o depois de três dias. Sem titubear, Manecão atira em seu rival e foge.

Antônio Cesário, que finalmente decidira intervir a favor do casal, encontra Cirino agonizando. Sem muito tempo de vida, o rapaz pede ao padrinho de Inocência que não permita que ela se case com Manecão Doca, e que avise sua amada que ele morreu por ela. Feita a promessa, Cirino morre chamando por Inocência.

De volta à Alemanha, em 18 de agosto de 1863, Meyer apresenta aos entomólogos do mundo inteiro sua mais recente descoberta: uma borboleta até então desconhecida, denominada Papilio Innocentia em homenagem a Inocência, uma criatura fascinante, segundo o próprio Dr. Meyer. Há exatos dois anos, a bela Inocência, triste com a morte de Cirino e a obrigação de se casar com Manecão Doca, falecera no sertão de Santana do Paranaíba, onde seu corpo dormia o sono da eternidade.