Iaiá Garcia

Publicada em 1878, Iaiá Garcia é a última obra da fase romântica de Machado de Assis. A trama se desenvolve entre 1866 e 1871, tendo no casamento – realizá-lo ou impedi-lo – seu mote principal. A união, considerada em função do amor ou do interesse, é usada para contrapor a moral social e as tendências naturais das pessoas. Duas mulheres protagonizam o escrito: a personagem que dá nome à obra e Estela, sendo a última mais atuante no desenrolar dos fatos que a primeira.

Luís Garcia – 41 anos, homem reservado, pai atencioso – vivia para a filha. “Contava onze anos e chamava-se Lina. O nome doméstico era Iaiá. (…) A boca desabrochava facilmente um riso, um riso que ainda não toldavam as dissimulações da vida, nem ensurdeciam as ironias de outra idade”. O viúvo morava em uma casa afastada e se enchia de alegria quando a menina chegava do colégio. Com os dois vivia também o negro Raimundo, dedicado ao patrão e à criança.

Na vizinhança, com a Sra. Valéria, moravam seu filho Jorge e a jovem Estela, uma moça cujo pai era amigo do falecido marido da dona da casa. Sabendo dos sentimentos de seu filho por Estela, Valéria desejava separá-los, visto que a pretendente era de classe social inferior. Para tanto, procurou Luís Garcia e pediu-lhe que convencesse Jorge a ir para a Guerra do Paraguai, cumprir os deveres de cidadão e trazer méritos para o país e a família.

Embora gostasse do rapaz, Estela também não desejava ficar com ele. “Simples agregada ou protegida, não se julgava no direito a sonhar posição superior e independente; e dado que fosse possível obtê-la, é lícito afirmar que recusara, porque, a seus olhos seria um favor, e sua taça de gratidão estava cheia. (…) Pois o orgulho de Estela não lhe fez somente calar o coração, infundiu-lhe a confiança moral necessária para viver tranquila no centro mesmo do perigo”.

Depois que Jorge tentou beijá-la, Estela decidiu ir embora e voltar a morar com seu pai. Desiludido, Jorge seguiu para o Paraguai, de onde escrevia para Luís afirmando que seu amor não esmorecera, ao contrário, transformara-o de criança em homem. Estela, por sua vez, convivia bem com a ausência do rapaz, e até voltara a viver com a Sra. Valéria, que não via mais perigo na presença da moça.

De volta à vizinhança de Luís, Estela começa a frequentar sua casa e se torna amiga de Iaiá. Por gostar da companheira, Iaiá sugere que ela e seu pai se casem, ideia que os dois consideram apropriada. Nem Luís nem Estela estão apaixonados, mas conversam sobre o tema e concluem que a estima e o respeito são menos voláteis que o amor, tornando a união entre os dois um passo seguro.

As personagens vivem no equilíbrio entre seus desejos naturais e suas ações morais. O amor perde espaço frente à conveniência e a paixão é subjugada à classe social. Nota-se que, embora ainda classificada como obra romântica, Iaiá Garcia já indica a transição de fases de Machado de Assis. O romance apresenta descrições psicológicas apuradas, leve crítica social, e não traz vilões nem faz do amor a força motriz do enredo.

A conveniência, pois, faz parecer a Estela e Luís que o casamento é um bom negócio para ambos. Valéria fica muito feliz ao saber da notícia e se oferece para pagar o dote da garota. Assim, garante que o filho se casaria com outra, alguém de classe social equivalente.

Com o falecimento de Valéria, Jorge volta ao Brasil e encontra sua amada casada com Luís. Como nada mais poderia fazer, passa a frequentar a morada do casal. Quando Luís adoece, o jovem amigo começa a se fazer ainda mais presente, angariando junto ao enfermo uma admiração que desagrada sua filha.

O ciúme do momento inicial vai sendo substituído pelo desejo de proteção do pai à medida que a garota percebe o sentimento existente entre Jorge e Estela. Enquanto Iaiá tenta afastar o recém-chegado de Luís, Jorge acaba por aproximar-se da moça, que ainda o despreza.

A atitude de Iaiá muda quando Luís lê para ela e a esposa uma carta antiga de Jorge, em que o rapaz confessava os sentimentos que tinha por Estela. A partir daquele dia, a fim de impedir um relacionamento entre Jorge e Estela, Iaiá começa a se aproximar do ex-soldado.

Quando Procópio Dias, pretendente de Iaiá, se ausenta do Rio, a moça aproveita para engatar um namoro com Jorge. Estela se enche de ciúmes, mas por orgulho não demonstra seus sentimentos – ao contrário, encoraja o casamento dos dois. Alega que Luís, cuja doença piorara, poderia ainda abençoar a união da filha, mas ele morre antes disso.

Como o principal objetivo de Iaiá era proteger o pai da possível traição da esposa, a menina decide cancelar o casamento. Outro motivo influencia na decisão da jovem: ela percebe que Estela ama Jorge, embora ele não a ame mais.

“Sabendo que a madrasta estava no gabinete do pai, ali foi ter e espreitou pela fechadura; viu-a sentada com a cabeça inclinada ao chão, desfeito o penteado, mas desfeito violentamente, como se lhe metera as mãos em um momento de desespero, e caindo-lhe o cabelo em ondas amplas sobre a espádua, com a desordem da pecadora evangélica. Iaiá não a viu sem que os olhos se umedecessem. — Que se casem! disse a moça resolutamente”.

Iaiá diz a Estela para se casar com Jorge, já que a morte de Luís eliminara os impedimentos que a madrasta tinha. Mas a viúva, por orgulho, recusa-se, e ao receber uma carta do ex-noivo da enteada pedindo auxílio para reatar o relacionamento, decide intervir.

A conversa em que Estela tenta convencer Iaiá a se casar com Jorge é o diálogo mais longo do romance. A mulher consegue seu intento, convence a garota e o casamento é realizado. Estela deixa o Rio de Janeiro e, embora continue trocando correspondência com Iaiá, tenta esquecer o passado.

Depois de um ano da morte de Luís, Iaiá vai visitar o túmulo do pai e encontra uma coroa deixada pela madrasta. Assim se encerra o romance: “Era sincera a piedade da viúva. Alguma coisa escapa ao naufrágio das ilusões”.