Feliz Aniversário

Feliz Aniversário é conto do livro Laços de Família, de Clarice Lispector, publicado em 1960. É um dos contos mais irônicos da obra e aquele que retrata a vida com mais negativismo. Nele, a autora mostra a maldade subentendida na forma da velhice e da vida. O conto relata a superficialidade fraternal, as rixas familiares, as diferenças econômicas entre os membros da família e os relacionamentos de aparência para “manter os laços”.

Chegava o dia do aniversário de D. Anita. A senhora, que era mãe de seis filhos homens e uma mulher (Zilda), morava com esta última e completaria 89 anos. Zilda, para homenagear a mãe, organizou a festa e deixou a senhora sentada na mesa apenas observando a movimentação. Uma mesa repleta de quitutes, como bolo, croquetes, sanduíches e balões que traziam os dizeres Feliz Aniversário e Happy Birthday.

As primeiras a chegar foram as noras Olaria e Ipanema. Ambas não se gostavam. Olaria estava vestida com um traje azul marinho e foi acompanhada dos filhos, mas sem o marido, que não tinha boa relação com os irmãos. Já Ipanema chegou com os dois filhos e a babá; seu esposo viria mais tarde. Em seguida vieram os demais convidados.

D. Anita observava tudo sem se mover. Reparava as crianças sujas, o movimento dos balões, seus filhos José e Manoel a conversar sobre negócios. José então alertou o irmão que aquele não era o momento para tratar sobre assuntos relacionados a trabalho, pois o dia era de comemoração pelo aniversário de sua mãe.

Os convidados se reuniram e cantaram finalmente os parabéns. D. Anita correu para cortar o bolo, que rapidamente foi abocanhado por todos. A aniversariante continuava a observar o movimento da festa – e olhava com desprezo para os parentes. Chegava à conclusão de que os filhos tinham feito escolhas erradas em relação às esposas. Nenhuma delas prestava. D. Anita só tinha carinho pelo neto Rodrigo.

A senhora então pediu um copo de vinho. A neta Dorothy questionou se não faria mal. Irritada, a aniversariante destratou os convidados: “Que vovozinha que nada! Explodiu amarga a aniversariante. Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundos!”

A neta, então, levou-lhe um copo de vinho com apenas dois dedos. D. Anita olhou e acabou nem bebendo. Já os convidados continuavam a se divertir.

D. Anita foi lembrada quando José levantou para fazer o discurso. Discorreu poucas palavras e lembrou o irmão Jonga, que havia falecido – era sempre ele o encarregado pelos discursos. Jonga era o único que a senhora aprovava e respeitava. A aniversariante colocara um muro entre sua morte e os outros filhos, e desde o falecimento ela não tocara mais em seu nome.

José então encerrou o discurso com as palavras “até o ano que vem”. Manoel completou dizendo “até o ano que vem diante do bolo acesso”. Animado, José ainda gritou “até o ano que vem, mamãe”. A senhora não perdeu tempo e falou: “não sou surda”.

A nora Ipanema desejou que a sogra vivesse mais um ano para que todos pudessem comemorar os 90 anos de D. Anita. Em seguida todos deixaram a festa. Os convidados ainda pensavam sobre as palavras do discurso. Alguns imaginavam que só se encontrariam novamente no próximo ano. Sem muita vontade e mantendo as aparências, despediram-se e partiram rumo a suas casas.

Enquanto isso, D. Anita, ainda sentada à cabeceira da mesa, pensou: “Será que hoje vai ter jantar?” Para ela, a morte era seu mistério.