Como e porque sou romancista

Mais do que uma autobiografia de José de Alencar, o livro Como e porque sou romancista, escrito em 1873 e publicado postumamente em 1893 em forma de carta, é um inventário importante para conhecermos a personalidade e os alicerces da formação literária do autor. Em linhas gerais, é um roteiro de teoria literária, onde Alencar apresenta a doutrina estética que norteou sua obra e a criação de seus romances.

No livro, o autor conta que enfatizou, desde a formação escolar, a importância dada à leitura. Na faculdade de Direito, em São Paulo, dominou o francês e leu obras de Balzac, Dumas, Vigny, Chateaubriand e Victor Hugo – nomes que podem servir para contextualizar, em uma prova de vestibular, a forma e a ideologia literária de Alencar.

O escritor afirma nesta obra que a primeira aproximação que teve com as letras foi por meio das charadas, que lhe teriam alimentado “o dom de produzir a faculdade criadora”. Ainda na adolescência, tentou um poema sobre a Confederação do Equador, e um romance histórico, Os contrabandistas.

Em um texto claro e absorvente, conta as histórias de infância, juventude e maturidade que fariam com que sua obra se tornasse algo original no panorama da literatura brasileira do Segundo Império. Interessante observar que o inventário de Alencar prenuncia a base literária que seria adotada por Machado de Assis poucos anos depois.

Bastante saudoso, Alencar vai esclarecendo o seu fazer literário com os “olhos da saudade” e até mesmo da mágoa. Refere-se às emoções de entrar em contato, desde jovem, com autores a cujo acesso pouquíssimas pessoas tinham, mas que lhe foi possível por ser de família rica. Ao absorver autores ingleses, franceses e norte-americanos, ele aproveita para estabelecer a diferença entre modelo e imitação.

Segundo o escritor, modelo é a forma do romance, com sensíveis alterações, e adotada em toda a literatura ocidental – quer se defender de críticas sobre possíveis imitações da obra romântica de outros países. Diz, assim, que o romance brasileiro não seria imitador, pois adquiria características próprias. No caso de Alencar, pode estar se referindo às obras românticas indianistas, como O Guarani.

As memórias mais sombrias são as da maturidade, onde se percebe a dificuldade que os romancistas tinham para se afirmar enquanto escritores. Entre as principais dificuldades, estavam o comércio abusivo e a baixa remuneração dos autores. Esses problemas podem ser encontrados no final da obra póstuma, que aparece também como um legado e uma justificativa de por que tomar o caminho mais difícil (seguir na escola romântica) enquanto o realismo despontava nas vendas.