Cinco minutos

Primeiro romance do escritor José de Alencar, Cinco minutos foi publicado em 1856 em forma de folheto para o jornal Diário do Rio de Janeiro. Alguns meses depois, com todos os capítulos já publicados, os textos foram impressos em única edição e distribuídos para os assinantes do periódico. A edição foi procurada por muita gente, abrindo as portas para o escritor.

Uma das características mais interessantes da obra é que os nomes dos personagens só são conhecidos nos capítulos finais do romance. O livro foi escrito na forma de carta a uma prima do autor.

“É uma história curiosa a que lhe vou contar, minha prima. Mas é uma história e não um romance.
Há mais de dois anos, seriam seis horas da tarde, dirigi-me ao Rocio para tomar o ônibus de Andaraí.
Sabe que sou o homem menos pontual que há neste mundo; entre os meus imensos defeitos e as minhas poucas qualidades, não conto a pontualidade, essa virtude dos reis e esse mau costume dos ingleses.”

A história tem início no Rio de Janeiro. O narrador-personagem perde o ônibus e é obrigado a pegar o próximo. O atraso foi de apenas cinco minutos, “Isto prova que a pontualidade é uma excelente virtude para uma máquina; mas um grave defeito para um homem”. Ele entra no próximo coletivo e procura um lugar, mas todos estão ocupados. No entanto, uma moça aperta-se em seu local e consegue achar uma brecha para o homem sentar. Ele tenta ver o rosto da garota, mas ela cobre a face com um véu de seda. “Além de a noite estar escura, um maldito véu que caía de um chapeuzinho de palha não me deixava a menor esperança”.

Imediatamente ele pensa que a mulher deveria ser feia. Porém, vê-se encantado por seu perfume, e ali mesmo os dois já se mostram apaixonados um pelo outro. Os braços do casal se tocam e ele dá um beijo em seu ombro. “A minha mão impaciente encontrou uma mãozinha delicada e mimosa, que se deixou apertar a medo”.

“- Perdão!
Não respondeu; conchegou-se ainda mais ao canto.
Tomei uma resolução heróica.
– Vou descer, não a incomodarei mais.
Ditas estas palavras rapidamente, de modo que só ela ouvisse, inclinei-me para mandar parar.
Mas senti outra vez a sua mãozinha, que apertava docemente a minha, como para impedir-me de sair.”

O momento é interrompido quando o ônibus chega ao destino. A moça, então, diz ao cavalheiro: “Não se esqueça de mim.”

Apaixonado, o homem passa a procurar diariamente por aquela mulher. Algum tempo depois ele conhece uma senhora que tem a mesma voz de sua amada e acaba descobrindo que ela é mãe da mulher que ele conhecera no ônibus. Os dois voltam então a se encontrar no teatro, mas dessa vez a menina não se mostra feliz ao vê-lo, o que o faz julgar a conduta da garota.

Dias mais tarde, já em sua casa, Lúcio encontra uma carta assinada por Carlota, em que a moça diz que fugia dele porque o amava, mas que o romance não poderia seguir, pois era desgraçado. Sem pensar duas vezes, ele vai embora para Tijuca a fim de esquecê-la. Arrependido, porém, retorna na certeza de encontrar sua paixão, mas acaba descobrindo outra carta de Carlota. Nesta, a jovem afirma que o amava e que sempre o observava nos bailes, mas que eles não poderiam ficar juntos porque ela tinha uma doença incurável. A moça também escrevera que estava indo para Petrópolis, e como a correspondência já tinha dois dias, Lúcio resolve seguir para a cidade e encontrá-la.

Já em Petrópolis, ele encontra Carlota e, sozinhos, eles declaram amor um ao outro. No entanto, a mulher foge novamente deixando mais uma carta ao rapaz. Desta vez, Carlota dizia que estava retornando ao Rio de Janeiro e que o homem deveria optar por ir atrás dela ou desistir do romance – o qual ela afirmava ser muito difícil devido à sua doença.

Atordoado, Lúcio deixa o hotel às pressas e compra um cavalo para levá-lo até a praia, onde poderia tomar uma barca. Contudo, não consegue chegar a tempo e ainda tem a dor de ver o cavalo morrer exausto. Disposto a rever Carlota, Lúcio propõe a um pescador que o leve até o Rio de Janeiro em troca do valor correspondente ao de um mês de pescaria. O pescador aceita a oferta, mas ambos acabam adormecendo devido ao vinho tomado, perdem os remos e passam a noite na canoa. O pescador então cai na água e puxa a canoa até uma ilha, onde eles conseguem dois remos. Depois de todo o sacrifício, enfim chegam ao Rio de Janeiro.

Já na cidade maravilhosa, Lúcio encontra outra carta da amada. A moça escrevera que estava a caminho da Europa, mas entendia seu atraso na viagem, pois ficara sabendo dos imprevistos. Não medindo esforços, o rapaz segue à Europa. Chegando lá, ele vai imediatamente aos correios à procura de novas cartas de Carlota que indicassem o caminho a seguir.

Tempos depois, em uma tarde, encontrando-se na varanda de sua casa, na cidade de Nápoles, Itália, Carlota parece especialmente fraca, como se quisesse dar adeus à vida. Ela havia pedido a Lúcio que, chegada a hora de sua morte, ele a beijasse a fim de receber em seus lábios a sua alma. Ele então une seus lábios aos dela – eis o primeiro beijo dos dois amantes. Parecia que seria o último, mas a alegria daquele momento romântico, que prenunciava uma vida feliz, fez Carlota querer viver.

A partir daquele dia, a saúde da moça começa a se restabelecer e ela ganha força e vigor. Com a melhora de Carlota, o casamento dos amantes se concretiza na Igreja de Santa Maria Novela, em Florença, Itália. Após a união, eles fazem uma longa viagem de núpcias.

De volta ao Brasil, o casal estabelece sua residência em uma quebrada na montanha, onde muitos dias felizes se sucedem. Os apaixonados só se separam quando Lúcio tira um tempo para ler seus livros, e ela, para cuidar das flores. “Ele não tem ciúmes de minhas flores, nem podia ter, porque sabe que só quando seus olhos não me procuram é que vou visitá-las e pedir-lhes que me ensinem a fazer-me bela para agradá-lo”.