Capitães de Areia

Capitães de Areia era o nome dado a um grupo de meninos marginalizados que viviam do furto na “cidade alta”, em Salvador. Atrevidos, malandros, espertos, moravam todos escondidos em um trapiche (armazém abandonado) sujo e infestado de ratos, que no passado fora um local movimentado. Nunca ninguém havia mencionado na literatura esse grupo de arruaceiros que engenhosamente desafiava as autoridades, roubando da classe privilegiada e dividindo o produto do crime entre seus camaradas subnutridos.

A maioria da cidade não gostava dos Capitães, e a polícia, que às vezes se mostrava indiferente aos garotos, os perseguia sempre que roubavam alguém importante. Poucas pessoas se relacionavam com eles, como José Pedro, D. Aninha, João de Adão e Querido-de-Deus.

José Pedro era um padre que ajudara a acabar com as relações homossexuais no grupo (a Igreja não se mostrava muito preocupada com os Capitães, apenas o padre José Pedro se interessava em ajudá-los); D. Aninha era uma negra praticante de candomblé; João de Adão era um estivador, negro fortíssimo e antigo grevista, temido e amado em toda a estiva; e Querido-de-Deus era um pescador que ensinava capoeira aos meninos, admirado por todos no trapiche.

Os Capitães de Areia eram bastante envolvidos e respeitadores do folclore e da religião da Bahia. Ao mesmo tempo em que se relacionavam bem com o padre José Pedro e respeitavam a Igreja, davam-se muito bem com a Mãe de Santo D. Aninha e se envolviam com o candomblé.

Às vezes a imprensa fazia o papel de porta-voz dos problemas relacionados aos Capitães, mas o espaço era sempre mais destacado quando o material se destinava a acusá-los.

Ao contrário de outros grupos da cidade, os Capitães de Areia tinham um líder, seguiam normas e obedeciam a um chefe que tinha o papel de “manter um lar” para as crianças que ali viviam. Eram liderados por Pedro Bala, um jovem de 15 anos que conhecia todos os recantos da cidade. Esperto e respeitador, marcado por uma cicatriz no rosto e por seus cabelos loiros, para firmar sua liderança destituiu o caboclo Raimundo após uma luta pelo “poder”. Através de João de Adão, descobriu ser filho de um líder sindical morto no cais durante uma greve e a partir daí passou a se interessar cada vez mais pelo movimento grevista. Garoto de rua desde os cinco anos de idade, Pedro Bala recebera esse apelido em razão de sua grande agilidade.

Além do líder, os Capitães de Areia eram formados por mais de cinquenta crianças, a maioria com apelidos baseados na aparência física. Gato era o mais bonito e elegante da turma. Assim que chegou ao grupo um dos meninos quis se relacionar com ele, mas ele não aceitou. Vaidoso, andava arrumado dentro do possível, com o cabelo sempre melado de brilhantina barata. Malandro e esperto, participava dos planos mais arriscados do bando. Na adolescência, apaixonou-se por Dalva, uma mulher da vida de 35 anos, corpo forte e rosto cheio de sensualidade. Abandonada pelo amante, Dalva começou a ter um caso com Gato, a quem dava dinheiro, motivo pelo qual o garoto muitas vezes não dormia no trapiche, só aparecendo ao amanhecer para sair com os amigos para as aventuras do dia.

Sem Pernas era um garoto pequeno para a sua idade, coxo de uma perna, agressivo e individualista. Estava sempre de mau-humor e implicava muito com os meninos mais novos do bando. Odiava tudo, principalmente a polícia baiana, desde que fora pego por policiais que o fizeram correr em uma sala enquanto davam gargalhadas. Costumava bater na porta das casas para pedir abrigo fingindo ser um pobre órfão aleijado, e quando era convidado a entrar observava onde estavam os objetos de mais valor para que os Capitães pudessem roubá-los depois. Certa vez conhecera uma mulher que o via como um filho perdido e o tratava muito bem, mas sua fidelidade aos Capitães o impedira de ficar com ela. Em outra oportunidade envolvera-se com uma mulher de meia idade, mas também a deixou por causa dos Capitães.

Professor tinha esse apelido porque era o único que sabia ler no grupo – passava noites lendo para as outras crianças à luz de velas, ou mesmo inventando histórias a partir do que já havia lido. Era um garoto magro, inteligente e calmo que planejava os roubos dos Capitães. Também sabia desenhar muito bem e às vezes conseguia uns trocados desenhando casais e jovens nas ruas da Bahia.

Volta Seca era um mulato sertanejo que viera da caatinga e odiava a polícia. Era afilhado do cangaceiro Lampião e sempre pedia ao Professor que lhe lesse as notícias sobre seu padrinho. Era também um fiel ajudante nos assaltos.

Pirulito era um garoto magro e muito alto, de olhos encovados e fundos, boca rasgada e pouco risonha. Era o único do grupo com vocação religiosa – apesar de pertencer aos Capitães, tinha o hábito de rezar e queria viver uma vida correta. Com a ajuda do padre José Pedro acabou abandonando o roubo e começou a vender jornais.

Boa Vida era um mulato troncudo e feio que sabia tocar violão. Malandro e esperto, participava dos principais roubos do grupo.

João Grande era um negro de 13 anos, com cabelo crespo e baixo, músculos rígidos e pé grande. Fumava e bebia cachaça. Era o mais alto e mais forte do bando, para onde entrou com apenas 9 anos, quando Caboclo ainda era o chefe. Seu pai, um carroceiro gigantesco, morreu atropelado por um caminhão tentando desviar o cavalo para um lado da rua, e a partir daí João não voltou mais para o morro em que vivia. Era um garoto burro, mas muito bom, como diziam seus próprios companheiros – não gostava de ver os menores sendo machucados e por isso protegia os pequeninos que entravam para o grupo cheios de receio. Devido à sua força muscular, era sempre chamado para as reuniões feitas pelos maiorais para organizar os roubos e realizava os mais audaciosos furtos ao lado de Pedro Bala, que o considerava melhor que os outros.

Quando a varíola chegou à praia, todos ficaram muito preocupados, pois os doentes eram recolhidos pela polícia e enviados ao lazarento, onde acabavam morrendo. Embora os Capitães tenham tentado esconder a doença de um dos meninos com a ajuda do padre José Pedro, o médico avisou o governo, que acabou mandado o garoto para o lazarento e castigando o padre que tentara encobrir a doença.

A mãe de Dora e Zé Fuinha também morrera assim e os dois acabaram descendo o morro sozinhos. Dora até tentou arrumar emprego, mas ninguém queria empregá-la devido à doença de sua mãe. Os dois, então, foram levados para o grupo dos Capitães por João Grande e Professor.

Dora tinha de 13 para 14 anos, era a única garota do grupo, ao qual se adaptou muito bem, ajudando inclusive nos roubos. Era simples, dócil, simpática e bonita. No início, alguns meninos se interessaram por ela, mas ela era protegida por Professor, João Grande e Pedro Bala e acabou virando uma espécie de mãe/irmã dos garotos, exceto para Pedro Bala e Professor, que a viam como uma noiva. Ela retribuiu apenas o afeto de Pedro Bala, com quem acabou se relacionando.

Certo dia, durante um assalto, Pedro Bala e Dora acabaram sendo pegos pela polícia. Ela foi enviada para um orfanato e ele foi torturado, mandado para a solitária por oito dias e despejado em um reformatório, de onde conseguiu sair com a ajuda de seus companheiros.

Os Capitães conseguiram libertar Dora também, mas ela estava doente, com uma febre muito forte, e passou apenas mais alguns dias com o bando. Na noite anterior à sua partida, ela e Pedro Bala consumaram seu amor na praia, tornando-se esposos. Morreu como uma santa, pois havia sido uma boa pessoa, e para Pedro Bala virara uma estrela. Depois disso, os Capitães seguiram com suas vidas.

Padre José Pedro ganhou uma capela nova e levou Pirulito para ajudá-lo com a Igreja de Cristo. Sem Pernas se suicidou enquanto fugia da polícia – jogou-se do parapeito do elevador Lacerda depois de muito correr para não dar aos policiais o gostinho de prendê-lo.

Gato foi com Dalva para Ilhéus, onde viveram só na malandragem. Algum tempo depois voltou a Salvador, mas só de passagem. Acabou indo embora com uma negrinha.

Boa Vida parou de frequentar o trapiche e passou a viver por aí, festando e amando a Bahia, tocando modas em seu violão. Fazia sambas e os cantava pelas ruas, nas calçadas, nos bares, a vagabundear.

Professor foi convidado por um homem que viu seus desenhos para ir ao Rio de Janeiro, onde se tornou um famoso pintor com os quadros dos Capitães de Areia. Volta Seca, por sua vez, foi para o nordeste na rabada de um trem atrás de Lampião, seu padrinho, e tornou-se cangaceiro. Foi pego pela polícia e condenado à morte pelo assassinato comprovado de trinta e cinco homens, mas na verdade já havia matado mais de sessenta pessoas. Já João Grande se mandou como ajudante em um navio.

Os outros acabaram se envolvendo em greves e lutas a favor do povo. Alberto, um estudante que lutava pelos ideais grevistas, sempre visitava os Capitães, que certa vez acabaram ajudando em uma greve graças ao fascínio de Pedro Bala pelas histórias do pai sindicalista. A pedido de Alberto, Pedro Bala acabou saindo do bando e foi liderar os Índios Maloqueiros de Aracaju. O posto de líder dos Capitães de Areia, então, foi entregue a Barandão. Anos depois Pedro Bala se tornou um líder revolucionário comunista, ícone da luta pelo povo (o comunismo é mostrado como algo bom).

Narrado em terceira pessoa, Capitães de Areia é dividido em três partes: a primeira apresenta o local em que as ações transcorrerão; a segunda relata a história de amor que surge com a chegada de Dora, a primeira “Capitã” de Areia; e a terceira mostra a desintegração do grupo. Antes da primeira parte, no entanto, há uma sequência de pseudo-reportagens que mostram diversas visões do bando.

Escrito na primeira fase da carreira de Jorge Amado, o livro apresenta grandes preocupações sociais. O que a obra transmite é o fato de cada um dos garotos tentar substituir de uma maneira diferente o amor materno que lhes faltava: Pirulito descobriu Deus; Gato envolveu-se com Dalva, uma mulher mais velha que lhe dava prazer todas as noites; Volta Seca via em seu padrinho uma esperança de um dia se juntar aos cangaceiros e lutar contra o sistema; Professor encontrou seu afeto na pintura, através da qual expressava seus sentimentos; e assim por diante. Por mais que eles tentassem, porém, o carinho de mãe não podia ser substituído, ficando sempre um espaço vazio nos corações dos meninos, que seguiam a vida, na maior parte dos casos, na criminalidade. O livro mostra, ainda, que o problema desses garotos faz parte da realidade brasileira e que grande parte das pessoas não se preocupa com isso, tratando os meninos como delinquentes.

As autoridades e o clero são quase sempre descritos como opressores (padre José Pedro é uma exceção), cruéis e responsáveis pelos males sociais. Já os Capitães de Areia são tachados como heróis no estilo Robin Hood, pois tiravam dos ricos para guardar para si (os pobres).