Auto da Barca do Inferno

Datado de 1517, o Auto da Barca do Inferno representa, de forma satírica e com forte apelo moral, o juízo final católico. O auto (peça teatral) se desenvolve em uma espécie de porto, à margem de um rio, em que duas barcas esperam os mortos para levá-los a seu destino final: uma comandada pelo Anjo, com destino ao céu, e outra comandada pelo Diabo, com destino ao inferno. Um a um, os mortos começam a chegar, quase sempre transportando objetos cênicos que fazem referência aos seus pecados, e são acusados tanto pelo Anjo quanto pelo Diabo, mas só aquele é capaz de absolvê-los.

O primeiro a chegar ao porto é um fidalgo, D. Anrique, representante da nobreza, que transporta uma cadeira de espaldas, símbolo da opressão e da tirania. O Diabo o ordena que entre em sua barca, mas ele se julga merecedor do céu por ter deixado muitas pessoas rezando por ele. Recusado pelo Anjo por ter cometido os pecados da tirania e da luxúria, porém, o fidalgo, frustrado, se dirige para a barca do inferno. Antes de partirem, o representante da nobreza tenta convencer o Diabo a deixá-lo rever sua amada mais uma vez, afirmando que ela estaria sentindo muito a sua falta, mas o barqueiro do inferno destrói seu argumento dizendo que ela o estava enganando.

A seguir chega o onzeneiro (agiota) com um bolsão que representa o apego ao dinheiro. Assim como o fidalgo, o onzeneiro tenta convencer o Anjo a levá-lo para o céu, mas não obtém êxito e acaba condenado ao inferno, desta vez pelos pecados da ganância e da avareza. Pede, então, ao Diabo que o deixe voltar para pegar a riqueza que acumulou em vida, mas é igualmente impedido.

O terceiro a chegar é o parvo, homem ingênuo, bobo, chamado Joane. Ao contrário dos outros personagens, o parvo não traz ao porto qualquer símbolo cênico, pois nada do que fez de errado foi por maldade. O Diabo tenta convencê-lo a entrar na barca do inferno, mas assim que descobre seu destino o parvo se dirige até o Anjo, que, agraciado com sua humildade, permite sua entrada na barca do céu. Na realidade, Joane permanece toda a peça no cais, numa espécie de purgatório, dando a impressão de que, apesar de ser um homem simples, também tinha cometido alguns pecados.

Em seguida chega o sapateiro Joanantão carregando seus instrumentos de trabalho, símbolo da exploração promovida pela burguesia comercial. O sapateiro, que em vida enganou muitas pessoas, tenta enganar também o Diabo, mas acaba condenado ao inferno pelos roubos cometidos em vida.

Depois chegam o frade e sua amante Florença. Frei Babriel, como era chamado o religioso, traz consigo um escudo, um capacete e um hábito, elementos que representam a vida mundana do Clero e a dissolução de seus costumes. Crente de que seria aceito no céu por ser um representante da Igreja, o frade já chega ao porto cantarolando. Devido ao seu falso moralismo religioso, porém, foi obrigado a entrar na barca do inferno.

Aparece também no porto uma alcoviteira chamada Brísida Vaz, que, assim como a maioria dos personagens, tenta inutilmente convencer o Anjo a levá-la para o céu, mas acaba condenada ao inferno por prostituição e feitiçaria. A alcoviteira carrega arcas de feitiços, jóias de vestir, estrado de cortiça, etc, todos símbolos da exploração interesseira e da atividade ligada à prostituição. No porto, o Diabo lhe diz que seu maior bem eram os “seiscentos virgos postiços”, fazendo referência aos seiscentos homens que ela teria enganado afirmando que suas prostitutas eram virgens (virgo = hímen, sinal de virgindade).

A seguir chega um judeu de nome Semifará acompanhado por seu bode, elemento que representa a rejeição à fé cristã, uma vez que é o símbolo do judaísmo. O judeu se dirige diretamente à barca do inferno, mas no início até o Diabo se recusa a levá-lo. Ele tenta subornar o barqueiro do inferno, mas este lhe diz que não pode transportar o bode e o aconselha a procurar outra barca. O judeu procura, então, o Anjo, mas é impedido até mesmo de chegar perto da barca do céu por não aceitar o cristianismo. Diante dessa situação o Diabo acaba por aceitá-lo, mas com a condição de que ele e seu bode fossem rebocados, e não dentro da barca. Esse trecho retrata bem o reinado de Dom Manuel (1495-1521), em que muitos judeus foram expulsos de Portugal. Os que ficaram no país foram obrigados a se converter ao cristianismo e passaram a ser chamados de “cristãos novos”.

Chegam, após, os representantes do Poder Judiciário: um corregedor (juiz) e um procurador (promotor), ambos carregando livros e processos. Convidados pelo Diabo a embarcar para o inferno, eles tentam se defender e pedem ao Anjo para entrar na barca do céu. Este, contudo, os condena por manipularem a justiça em benefício próprio. Na barca do inferno, os novos tripulantes fazem companhia a Brísida Vaz, revelando certa familiaridade com a cafetina, dando a entender que havia certa troca de serviços entre eles quando ainda vivos.

Em seguida aparece o enforcado, ainda com a corda no pescoço, acreditando que seria perdoado por já ter sido julgado e condenado à pena de morte. Contudo, é rejeitado pelo Anjo e mandado ao inferno pelo crime de corrupção.

Por fim, chegam ao porto quatro cavaleiros que lutaram e morreram em defesa do cristianismo, cantando e carregando a cruz de Cristo, símbolo da fé na religião católica (único elemento cênico que representa a virtude do personagem, e não seus pecados). Os cavaleiros estavam certos de que embarcariam para o céu, pois haviam morrido por Jesus Cristo, e de fato encontram o Anjo à sua espera, para, então, seguirem juntos rumo ao paraíso.

Gil Vicente, portanto, retrata de forma irônica um mundo maniqueísta, dividido entre o bem e o mal, o céu e o inferno. Apenas os personagens cristãos e puros são levados ao céu, enquanto a maioria é condenada ao inferno. Através desses personagens o escritor fornece ao leitor uma visão de como era a sociedade portuguesa no início do século XVI (cada um representa uma classe social, uma profissão ou até mesmo uma crença).

Escrito em versos de sete sílabas poéticas em um único ato, o Auto da Barca do Inferno apresenta uma linguagem coloquial entre os personagens, através da qual é possível classificá-los segundo sua condição social. A obra faz parte da chamada trilogia dos autos da barca, composta também pelo Auto da Barca da Glória e pelo Auto da Barca do Purgatório.