As Vítimas-Algozes

Cerca de 20 anos antes da abolição da escravidão, Joaquim Manuel de Macedo escreveu o livro As Vítimas-Algozes. O livro pertence à escola romântica, de grande importância para a história da literatura brasileira, e, ao seu modo, é um romance abolicionista. No entanto, a obra não agradou o público do século XIX e recebeu várias críticas na imprensa, chegando a ser considerado “o livro mais atacado pela crítica durante o período românico”.

No livro, o autor afirma que a escravidão deve ser extinta sem prejuízo para os proprietários de terra. Em um tom conservador, defende a tese de que a escravidão cria vítimas oprimidas socialmente. No entanto, o ideal abolicionista de Macedo é pervertido – o romance quer convencer os leitores de que é preciso libertar os negros porque muitos, com arrego nas casas-grandes, facilitam a corrupção física e moral das famílias brancas, ou seja, não há de se esperar um ideal humanitário no livro.

A obra é dividida em três narrativas. A primeira, intitulada Simeão, o crioulo, conta a história de Simeão, um crioulo que perdera a mãe, ama-de-leite da sinhazinha, aos dois anos de idade e fora criado pelos patrões. Cresceu na condição de filho adotivo, com lugar à mesa e quarto comum até os 8 anos. Depois dessa idade foi privado da mesa e do quarto comum, mas ainda tinha algumas regalias e foi criado sem hábito de trabalho, embora fosse tratado como escravo.

Simeão acreditava que conquistaria a liberdade quando o patrão morresse – o que não aconteceu. Antes de morrer, o patrão escreveu em seu testamento que Simeão conseguiria a alforria apenas quando a esposa morresse, o que alimentou sua raiva sobre os patrões. O escravo, então, com a ajuda de um comparsa, assassinou toda a família e roubou suas jóias (a cena é descrita com incrível crueldade, notadamente pelo fato de os proprietários de Simeão se considerarem protetores bem-intencionados do escravo, tendo decidido, inclusive, no dia anterior, que lhe dariam a alforria).

O autor vai construindo, após o assassinato, um perfil aterrorizante de Simeão, misto de vítima e algoz. Claramente procura amedrontar os brancos e senhores de escravos, sugerindo como solução o fim da escravidão. No final, não há um desfecho romântico, mas a reafirmação da tese do autor: “Simeão foi o mais ingrato e perverso dos homens. Pois eu vos digo que Simeão, se não fosse escravo, poderia não ter sido nem ingrato, nem perverso. A escravidão degrada, deprava, e torna o homem capaz dos mais medonhos crimes”.

A segunda narrativa, por sua vez, intitulada Pai-Raiol, o feiticeiro, conta a história de Paulo Borges, um fazendeiro casado com uma jovem senhora chamada Teresa. Certo ano, Paulo e Tereza compraram 20 escravos, dentre eles Esméria, uma crioula de 20 anos que passou a cuidar dos filhos do casal, e Pai-Raiol, um negro de trinta a trinta e seis anos de idade, baixa estatura, cabeça grande, olhos vesgos e lábio superior separado por uma cicatriz de infância, deixando à mostra pontudos e ameaçadores dentes caninos. Um dos últimos escravos importados da África, Pai-Raiol tinha uma fama terrível: desordem com os parceiros, furtos, envenenamentos, transmissão da sífiles; além disso, dominava as escravas pelo medo e pelo pavor.

Paulo Borges e Teresa viviam bem até a chegada do feiticeiro, que incitou Esméria a seduzir o patrão. Vem, então, o adultério, flagrado por Teresa, que se tranca no quarto sem nunca mais querer ver o marido. Esméria, por sua vez, vai assumindo o papel de dona da casa, aumentando cada vez mais a humilhação de Teresa, que acaba morrendo envenenada.

Quando a mucama tem um filho do patrão, Pai-Raiol lhe mostra a necessidade de que aquele seja o único herdeiro de Paulo Borges, o que leva Esméria, ensinada pelo feiticeiro, a envenenar Luís e Inês, filhos de Paulo com Teresa. Mortos os dois filhos legítimos de Paulo Borges – e os de alguns escravos, para funcionar como álibi à maldade de Esméria e Pai-Raiol –, a mucama, novamente orientada pelo feiticeiro, pede a Paulo que reconheça o filho que tivera com ela.

Não suportando mais a situação, porém, Esméria revela seu segredo a um escravo, Alberto, relatando-lhe o domínio que o feiticeiro exercia sobre ela. Alberto, então, briga com Pai-Raiol, que acaba morrendo ao ser atirado de um desfiladeiro. Quando Alberto já está amarrado e preso, Paulo Borges, que já sabia da trama entre Esméria e Pai-Raiol, concede ao escravo sua carta de alforria, afirmando que fora salvo por ele. Já Esméria é castigada pelos atos perversos que cometera.

A terceira narrativa, por fim, chamada Lucinda, a mucama, conta a história de Cândida, filha de um agricultor do interior do Rio de Janeiro, que no seu aniversário de 11 anos recebeu de presente uma escrava crioula chamada Lucinda.

Lucinda veio para substituir Joana, a senhora que cuidava de Cândida anteriormente. O escritor oferece uma breve comparação entre Lucinda e Joana – enquanto Joana é descrita como uma “segunda mãe”, “criada amiga” e “companheira do seu quarto de dormir”, Lucinda é vista como a crioula “filha da mãe fera, vítima da opressão social”. Macedo dedica quase quatrocentas páginas a esta história.

No romance, a mucama tem uma influência nefasta sobre a donzela, de quem se torna a única confidente. Ensina a ela o que ocorre quando a menina vira moça, desperta-lhe a curiosidade pelos rapazes, ensina Cândida a namorar. Segundo o autor, as lições da mucama “eram inspiradas pelo sensualismo brutal”. Mais uma vez Macedo busca no escravo a razão dos instintos que deturpam a imagem do homem.