Antes do Baile Verde

Antes do Baile Verde é composto por vários contos, um dos quais de mesmo nome do livro. As histórias que fazem parte da obra examinam os mais variados destinos humanos. Falam sobre conflitos amorosos, descobertas, desejo e consciência moral.

Um ambiente teatral e angustiante dá a tônica do conto homônimo ao livro, que relata os preparativos da jovem Tatisa para um baile carnavalesco em que todas as fantasias deveriam ser verdes. Enquanto ela se arruma para o baile, colocando lantejoulas no saiote que cobre o biquíni, seu pai agoniza, mas Tatisa finge não perceber que o pai está morrendo para não perder a festa.

A empregada Lu chama a atenção da jovem para a saúde do pai, mas, no decorrer da conversa, ela deixa transparecer seu egoísmo e a total indiferença ao seu genitor. Tenta convencer a empregada a ficar com seu pai, mas Lu reluta, pois não quer perder o desfile de carnaval.

Neste conto, a autora faz um paralelo moral do egoísmo e da mesquinharia humana. De um lado, o pai enfermo, do outro, a filha que só pensa em si. Na incapacidade de assumir suas falhas, Tatisa transfere não só a culpa, mas também a responsabilidade pelo estado de seu pai para o médico e para a própria empregada, tentando se justificar não só para Lu, mas para si mesma.

Esta passagem mostra a atitude egoísta da personagem central em um diálogo com a emprega Lu: “Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem disse que não podia ficar com ele aqui em casa, eu disse que não sei tratar de doente, não tenho jeito, não posso! Se você fosse boazinha, você me ajudava, mas você não passa de uma egoísta, uma chata que não quer saber de nada. Sua egoísta.”

No final, Tatisa tenta se convencer de que está tudo bem e as duas saem para o carnaval, deixando seu pai desfalecendo.

Antes do Baile Verde tem estilo simples, com poucas descrições e discurso direto, com predomínio do diálogo dos personagens diante do narrador, cujo papel se limita a guiar o andamento da cena, sem entrar em detalhes acerca dos fatos ocorridos. É um flash da vida humana retirado em um de seus momentos mais angustiantes.

Essa angústia é passada ao leitor ao final do conto, que é deixado em aberto. Através desse recurso, a autora busca uma maior interatividade com o leitor, fazendo com que ele crie várias possibilidades de finais para a história.

Os demais contos do livro são:

• Verde lagarto amarelo: Relata a história de dois irmãos e seus dramas. O mais novo, Rodolfo, que sempre foi o preferido da mãe, era casado, animado. Já o mais velho, Eduardo, vivia a serviço do querer; era calado, mas tinha o dom da escrita (era escritor). Certa vez, durante uma visita que fizera ao irmão, Rodolfo declarou que também havia escrito um romance, roubando de Eduardo, assim, a única coisa que lhe pertencia.

• Apenas um saxofone: Aborda a história de uma mulher velha e rica que era sustentada por um homem rico, um jovem que lhe satisfazia e um professor espiritual com quem dormia. Possuía fortuna, mas era infeliz. Tinha lembranças de seu grande amor, um saxofonista que se dedicava a ela completamente. Ele tocava com paixão o saxofone e assim mantinha a mulher. Contudo, a relação se desgastou a ponto de ele ir embora enojado, deixando-a só com a lembrança.

• Helga: Conta a história de um jovem do sul do Brasil que passava as férias na Alemanha, onde, certa vez, passou pela guerra, motivo pelo qual não seria mais aceito no Brasil, passando, então, a viver naquele país do tráfico de alimentos. Foi lá que  conheceu Helga, uma alemã que tinha uma perna ortopédica muito cara, por quem se apaixonou. Após o noivado dos dois, o pai da moça propôs ao genro que iniciassem o tráfico de penicilina, mas faltava-lhes o investimento inicial. Já casado com Helga, o rapaz rouba-lhe a perna ortopédica e desaparece, voltando, tempos depois, rico para o Brasil.

• O moço do saxofone: O moço do saxofone narra a história de um motorista de caminhão que se instalou em uma pensão onde viviam inúmeros anões, uma mulher e seu marido saxofonista, um homem traído e conformado. Sempre que a esposa estava com outro homem o marido tocava seu saxofone de forma deprimente, o que incomodava o chofer. No início, o motorista hesitou em ir para a cama com a mulher casada, mas acabou marcando um encontro com ela. No horário marcado, o motorista se dirigiu até a porta indicada pela mulher e lá encontrou o saxofonista. Vendo-o conformado com a situação, perguntou-lhe por que nada fazia, tendo o marido respondido que aproveitava os encontros de sua mulher para tocar saxofone. Depois disso, o chofer partiu da pensão.

• A caçada: Um homem encontra uma velha tapeçaria em uma loja de antiguidades e acaba se prendendo à imagem da caçada que ela retrata, sentindo-se personagem daquela cena, como se tivesse participado dela em outra vida ou em outra dimensão. Passa, então, a ir à loja com frequência para observar a peça, até que, estando em frente a ela, tem um ataque cardíaco.

• A chave: A chave conta a história de um casamento saturado entre um homem de 59 anos e uma mulher de 28. Tomás e sua esposa, Magô, se arrumam para um jantar enquanto ele, insatisfeito, reclama e pensa na inutilidade desses jantares e no quanto gostaria de ficar ali dormindo.

• Meia noite em ponto em Xangai: Relata a noite de uma cantora que alcança um momento de brilho em sua carreira em um concerto na China. Terminado o show, ela recebe em casa seu empresário e os dois conversam sobre sua carreira e a desumanidade dos empregados dali. Depois que o empresário se vai, a cantora se aterroriza com a escuridão e a suposta presença de um empregado no aposento.

• A janela: Um homem se aproxima da janela do quarto de uma mulher dizendo-lhe que seu filho morrera naquele local. A mulher o questiona, mas ele pouco responde, preso à lembrança do filho. A mulher, então, oferece-lhe um refresco e ele o aceita, mas quando ela retorna traz consigo alguns médicos. O homem pergunta-lhe o motivo e, sem necessidade de usar a camisa de força, os médicos o levam embora.

• Um chá bem forte e três xícaras: A história se passa em poucos minutos, durante os quais Maria Camila espera uma convidada para o chá. A convidada é Matilde, uma jovem de apenas 18 anos que trabalha com seu marido. A empregada lhe pergunta se aquela jovem é a mesma que sempre liga atrás do patrão e ela responde que sim. Em seguida, limpando as lágrimas, a mulher caminha até o portão para receber a moça que vem chegando, enquanto a empregada vai buscar o chá e três xícaras, caso o patrão venha também.

• O Jardim Selvagem: O Jardim Selvagem é narrado por uma criança e trata do casamento do tio Ed com Daniela. Tia Pombinha, irmã de Ed, confidencia a sua sobrinha que desaprova o casamento, dizendo que Daniela está sempre com uma luva em uma das mãos, mas depois de conhecê-la passa a achá-la um amor de pessoa. Algum tempo depois, a empregada da casa conta à sobrinha de Ed que viu Daniela matar um cachorro com um tiro na cabeça, sob a justificativa de que estava poupando o animal da dor que a doença lhe causava. Dias depois chega a notícia de que Ed está doente, e, mais tarde, de que se matou com um tiro na cabeça. O título do conto apresenta uma expressão interessante e ambígua: um jardim geralmente é um ambiente doméstico, formado por uma coleção de plantas cultivadas e, portanto, conhecidas; por outro lado, pode ser um ambiente selvagem, ermo, sem civilização.

• Natal na barca: Narra o diálogo entre uma senhora e uma mulher em uma barca que cruza o rio no dia de natal. A mulher carrega no colo o filho doente, que está sendo levado ao médico. Durante a viagem, ela conta à senhora como perdeu seu filho mais novo, que pulou de cima de um muro pretendendo voar, e como seu marido a abandonou, mandando-lhe apenas uma carta depois. A senhora, sem saber o que dizer, arruma a manta do bebê, momento em que percebe que ele já está morto. A embarcação chega ao seu destino e a senhora se precipita para descer, pois não quer ver a dor da mulher ao descobrir que seu filho não sobrevivera. Assim que descem, porém, o bebê acorda e a senhora vê a mãe e a criança partirem.

• A ceia:  Em A ceia o narrador descreve um restaurante decadente, modesto e pouco frequentado onde dois amantes, Eduardo e Alice, se despedem. A mulher, desesperada e apaixonada, tristemente suplica ao homem que a visite, mas ele diz que o relacionamento acabou. Afirma, ainda, que o tempo que passaram juntos foi muito bom e que não quer que eles terminem como inimigos. Ela assume um ar sarcástico e o questiona sobre a noiva, depois lhe pede que vá embora, partindo sozinha.

• Venha ver o pôr-do-sol:  Depois de algum tempo, um casal rompe o relacionamento, mas volta a se encontrar devido às súplicas do homem, que marca com a mulher um encontro no cemitério. Lá, Ricardo conduz Raquel até o jazigo que diz ser de sua família, a fim de mostrar-lhe a fotografia de uma prima sua que tinha os olhos parecidíssimos com os dela. Ao entrar no jazigo, Raquel observa que a data do óbito da moça é muito antiga para ser de uma prima de Ricardo, e quando se dá conta ele já havia trancado o jazigo com ela dentro e ido embora enquanto as crianças brincavam na rua.

• Eu era mudo e só: O conto relata a história de Manuel, um homem oprimido pelo casamento que há tempos se afastara dos amigos. Sua mulher, Fernanda, criada na perfeita educação, passa o mesmo para a filha Gisela. Para manter o padrão que a esposa exigia, Manuel abandonara o jornalismo para se tornar sócio de seu sogro no ramo de máquinas agrícolas.

• Pérolas: Enquanto Lavínia se prepara para uma reunião, Tomás, seu marido, observa, imaginando o que acontecerá na reunião. Vê a mulher com Roberto na sacada, próximos, sem palavras, mas sabendo que se amam. Prestes a sair, ela procura seu colar de pérolas, mas Tomás o havia escondido para diminuir a realidade do que aconteceria na sacada. Quando ela já está na calçada, porém, ele a chama, diz que encontrou o colar e o entrega a sua mulher.

• Menino: Relata a ida de um menino e sua mãe ao cinema. Enquanto caminham, o garoto segue orgulhoso pela beleza da mãe. Quando chegam, a mulher, que caminhava apressada na rua, demora algum tempo na porta do cinema e manda o menino comprar doces. Ao entrar na sala, passam por muitos acentos com vaga para apenas duas pessoas, mas se sentam onde há lugar para três. O filme começa e o menino reclama da enorme cabeça à sua frente. Tenta mudar de lugar, mas a mãe não deixa. Em seguida, um homem se senta na poltrona vaga ao lado da mulher. Depois de alguns minutos, a pessoa que atrapalhava a visão do garoto sai do acento, e nesse momento ele percebe que sua mãe está de mãos dadas com o estranho ao lado. A imagem da mão branca da mãe e da mão morena do homem o perturba. Pouco antes do fim do filme o homem parte. Já em casa, o menino encontra o pai e chora.