Amar, Verbo Intransitivo

Amar, Verbo Intransitivo é o primeiro romance de Mário de Andrade. Começou a ser escrito em 1923, foi terminado em 1926 e publicado em 1927. Chama a atenção principalmente pela linguagem, provavelmente considerada “errada” na época, pois se afasta do português legítimo ao imitar o padrão coloquial. É como se o texto transcrevesse a maneira de falar do povo brasileiro. O romance apresenta no próprio título uma contradição, afinal, o verbo amar é transitivo direto, e não intransitivo.

A obra faz lembrar o estilo machadiano com o constante emprego das digressões e apresenta elementos formais que a colocam à frente de seu tempo, caracterizando-se como moderna. Pode-se perceber também no romance a utilização da teoria freudiana (grande paixão do autor).

Dentro do aspecto sociológico, Mário de Andrade adota posições ambíguas, como se mostrasse uma “paixão crítica” por seu povo, principalmente o paulistano. Ao mesmo tempo em que critica valores do povo brasileiro, o autor afirma que essa é sua forma de se comportar, deixando implícito certo ar de “não tem jeito”, “o povo brasileiro é assim mesmo”. A mesma ambiguidade é percebida em relação aos estrangeiros: se por um lado o autor os elogia (principalmente a força dos alemães), por outro os desmerece, mostrando-os extremamente metódicos, desembaraçados para o calor latino.

O tema abordado pelo escritor é completamente inédito na literatura brasileira e deve ter sido motivo de certo escândalo na época da publicação do livro. A história relata a iniciação sexual do protagonista, Carlos Alberto, filho mais velho de D. Laura e Sousa Costa, um rico industrial e fazendeiro. Com medo de que seu filho iniciasse sua vida sexual em um prostíbulo, em contato com drogas e doenças, Sousa Costa resolve contratar Fräulein Elza, uma alemã de 35 anos, teoricamente para ser governanta de sua casa em Higienópolis e para ensinar alemão a seus quatro filhos, mas com a verdadeira intenção de que ela iniciasse Carlos Alberto na vida sexual.

A atitude de Sousa Costa de contratar uma profissional do amor para prestar serviços sob seu próprio teto revela alguns valores da burguesia da época. O chefe da família se comporta como os novos ricos que acham que o dinheiro pode dominar tudo, inclusive a iniciação sexual. Nesse aspecto, inclusive, o autor se mostra bastante cruel. Ficam claras suas críticas à burguesia paulistana e à sua mania de tentar ser o que não é ou de esconder o que realmente é. Isso fica evidente quando o narrador descreve Sousa Costa usando brilhantina até no bigode e D. Laura passando produto para alisar os cabelos: querem esconder que são tão mestiços quanto o resto do país.

A intenção de Sousa Costa, contudo, é fadada ao fracasso, já que Carlos não era mais virgem. O jovem tivera sua primeira experiência sexual no Ipiranga, em meio a uma festa, com uma prostituta. De qualquer modo, não fora uma iniciação completa, pois havia sido um ato automático, por pressão dos amigos.

Carlos precisava ser educado. Constantemente, ao brincar com suas três irmãs mais novas, acabava, sem querer, machucando-as (há também aqui uma conotação freudiana). O protagonista fere porque não sabe controlar sua força; é um desajeitado. Nesse ponto sua iniciação será importante, pois servirá para domar seus impulsos, sua energia, sua afetividade.

Fräulein, que em alemão significa “senhorita” ou “professora”, realiza seu serviço com dignidade, não enxergando nele qualquer relação com a prostituição. Para ela é uma missão! Aceita a tarefa porque acredita que as pessoas precisam ser educadas e treinadas também para o amor. Esse disfarce meio hipócrita de Fräulein Elza, que na aparência é uma governanta mas na realidade é uma iniciadora do amor, revela toda a complexidade em que está mergulhada a sexualidade humana.

A iniciação sexual tranquila e segura era vista como garantia de uma vida madura e até mesmo do estabelecimento de um lar sagrado, ou seja, o sexo era a base de tudo. A alemã tem plena consciência disso e quer ensinar a Carlos um amor tranquilo, sem descontroles, sem paixões. O problema é que o garoto é amalucado. Carlos Alberto não percebe suas intenções durante as aulas de alemão, por mais que ela se mostre sedutora nos momentos em que os dois ficam sozinhos na biblioteca, o que a deixa irritada (vale lembrar que os livros da biblioteca também eram comprados por uma questão de status, muitos nem sequer eram abertos).

Com a convivência, porém, o interesse do jovem pela mestra vai surgindo, ainda que de início não seja claramente revelado. O garoto começa a se interessar por tudo o que se refere à Alemanha, evoluindo até o conhecimento da língua. Se antes Carlos tinha um desempenho sofrível nas aulas, agora aprende o vocabulário de forma acelerada.

O livro revela muito bem as características da sexualidade humana. A atração entre o casal se mostra mergulhada em um jogo de avanços e recuos, desejos e medos. Os toques de Fräulein Elza tornam-se cada vez mais constantes e a tensão se torna máxima quando Carlos se masturba inspirado na professora. A compreensão dessa parte, contudo, requer do leitor certo esforço. Talvez a intenção do narrador seja, além de evitar o escândalo que seria provocado com a abordagem direta de um tema tão delicado, mostrar como a questão está confusa na cabeça de Carlos.

Entre as noções de prazer e pecado, desejo pela professora e consciência de que tal ato é condenado pela educação e pela formação religiosa que recebera, Carlos se dá conta de que de fato deseja Fräulein Elza.

D. Laura, alheia aos verdadeiros acontecimentos, estranha o apego do filho à mestra e a procura para conversar, ingenuamente preocupada com a possibilidade de Carlos Alberto fazer alguma besteira. Inconformada com a quebra do combinado (ao contratar a alemã, Sousa Costa havia prometido deixar claro a D. Laura qual seria sua verdadeira função), Fräulein convoca uma reunião com os pais do garoto, na qual pretende esclarecer todo o acerto. O resultado é que tudo se complica. O casal não sabe exatamente o que fazer (se ainda a querem ou não como governanta) e Fräulein se decepciona com a maneira com que os “latinos” tratam o assunto.

A partir daí ela se torna mais apelativa. O contato corporal entre a professora e o rapaz se torna mais intenso, o que assusta o filho de Sousa Costa. Delicadamente, Fräulein vence e a iniciação sexual se concretiza. Carlos passa a frequentar a cama da governanta durante as noites e os dois acabam assumindo uma cumplicidade gostosa, o que indica o amadurecimento do garoto.

A alemã acaba se envolvendo também, o que se torna preocupante. Na verdade, esse envolvimento acirra o conflito entre os “dois alemães” que o narrador afirma existir na governanta: um dedicado ao sonho, à fantasia, que anda sufocado em Fräulein; e outro prático, metódico, que domina sua personalidade. A relação com Carlos, no entanto, vem fortalecer o primeiro, comprometendo o segundo.

Para complicar a situação, uma das irmãs de Carlos adoece e passa a ser cuidada pela governanta. A família Sousa Costa cria uma enorme dependência em relação à alemã, que começa a se sentir a mãe de todos – papel, aliás, que ela assumirá no final da narrativa. Preocupada em não perder o controle da situação, Fräulein decide acelerar ao máximo o término de sua tarefa. Quer que tudo termine de forma dramática, pois acredita que o trauma amadurece, e combina com Sousa Costa um flagrante.

Os amantes, então, são apanhados no quarto da governanta. O pai dá uma bronca no filho, alertando-o para os riscos de uma gravidez, um casamento forçado e tantos outros problemas. Em seguida, a alemã recebe seus oito contos e parte, deixando Carlos em um luto monstruoso, o que também faz parte de seu crescimento.

Fräulein ainda é flagrada ensinando outro garoto da burguesia de Higienópolis, Luís. Dessa vez ela não sente prazer no serviço, talvez por ainda pensar em Carlos, mas mesmo assim o executa, seduzindo o garoto e abrindo-lhe o caminho para o amor, afinal, essa é a sua profissão. Precisa ser prática e juntar dinheiro para voltar para a Alemanha.

Chega o carnaval. Em meio à folia de rua, Fräulein visualiza Carlos e atira-lhe uma serpentina. O garoto a vê e a cumprimenta formalmente, mas sem dar-lhe muita atenção, parecendo mais preocupado com a moça que agora lhe faz companhia. Nesse momento, Fräulein tem um misto de emoções. Ao mesmo tempo em que o lado prático da alemã tem consciência de que cumpriu sua missão, seu lado sonhador sente-se frustrado.

Após a palavra “fim”, que encerra o romance, o narrador ainda mostra o destino dos protagonistas: Carlos esquece a governanta e aos poucos vai reproduzindo os valores degradados de seus pais, enquanto Fräulein Elza segue a vida ciente de que ajuda os rapazes da burguesia paulistana a se preparar para futuras relações amorosas. A esses garotos a alemã procura transmitir a crença civilizada de amar intransitivamente, ou seja, sem se prender ao objeto do amor (daí o título do livro), para, em um momento posterior, poder amar alguém transitivamente. Ela se vê, então, como a mãe do amor.

Personagens principais:

• Felisberto Sousa Costa: Rico industrial e fazendeiro, é o chefe de uma típica família burguesa paulista dos anos 20. Contrata uma “governanta” para iniciar a vida sexual de seu filho mais velho, Carlos Alberto. É o centro, não afetivo, mas administrativo da casa que mantém.

• D. Laura: Mãe de Carlos e esposa de Sousa Costa, sempre obediente ao marido. É uma senhora da sociedade que mantém todas as aparências de seriedade religiosa e familiar. Concorda com os argumentos sempre convincentes de seu esposo.

• Carlos Alberto: Jovem de 16 anos, é o filho mais velho de Sousa Costa e D. Laura. É o queridinho da família e deverá ser o principal herdeiro do nome, da fortuna e das realizações paternas. Centraliza a narrativa ao lado da governanta alemã, Fräulein Elza.

• Fräulein Elza: Colocada entre as melhores personagens femininas da literatura brasileira, Fräulein, 35 anos, é uma “governanta” alemã. É contratada por Sousa Costa para fazer a iniciação sexual de Carlos, filho mais velho do industrial. Sem muito interesse, também cuida da educação e da instrução das filhas mais novas, ensinando-lhes alemão e piano. Está tentando juntar dinheiro para voltar para a Alemanha, sua terra natal, de onde tem muita saudade.

• Maria Luísa: Irmã de Carlos, tem 12 anos.

• Laurita: Irmã de Carlos, tem 7 anos.

• Aldina: Irmã caçula de Carlos, tem 5 anos.