A Pata da Gazela

A obra A Pata da Gazela, escrita em 1870 por José de Alencar, é bastante singela e representa a velha fórmula do triângulo amoroso. Foi baseada no conto A Cinderela e na fábula do leão amoroso de La Fontaine. Na história, Alencar procura mostrar que o amor verdadeiro é aquele que nasce da alma, e não o construído a partir das aparências.

A história começa com as primas Amélia e Laura na quitanda, à espera do empregado, observadas de longe por Leopoldo. Quando o empregado aparece, Laura sobe correndo no carro. Com a pressa da menina, o embrulho que ela trazia na mão cai no chão e se abre sem que a garota perceba. O pacote trazia um par de botinas, pegas por Horácio, um dos homens mais cobiçados da cidade, mas ele não consegue devolver, pois o carro das garotas parte em seguida.

A dona daquelas botinas acaba despertando tanto o amor de Leopoldo como o de Horácio. Porém, os dois jovens amam de maneiras opostas: o primeiro se apaixona pela alma da moça, mesmo que a tenha visto apenas uma vez; já o segundo se encanta pelos pés desconhecidos da menina que calçava aquela botina tamanho 29. Ambos vão então à procura daquela mulher, a dona dos belos calçados.

Horácio segue sua missão de encontrar a dona das botinas. Certa vez, observando Amélia e algumas amigas, nota seu rastro na areia e tem a certeza de que a dona daquelas botinas era Amélia, e não Laura. Interessado na moça, começa a frequentar sua casa e conhece seus familiares.

Já na casa de D. Clementina, que gostava de reunir as moças para dançar, Amélia conhece Leopoldo. O rapaz, que observava a jovem sem parar, percebe que de fato a ama, mas logo Horácio a pede em casamento. Leopoldo fica sabendo da notícia e, com mágoa, tem a certeza de que amaria unicamente aquela mulher, já que Deus a teria feito para ele.

Dias depois, Leopoldo encontra Horácio em um baile da cidade. Os dois amigos começam a conversar e é desta conversa que Amélia tem a revelação: a jovem escuta o noivo contar a Leopoldo que não sentia nada por ela, mas quando soube que a moça era a dona das botinhas, adorou-a.

A menina, então, sai às pressas do baile e no dia seguinte convida Horácio para ir a sua casa. O moço a vê bordando pantufas com a letra “L” e ela lhe diz se tratar de um presente para uma amiga. Ainda triste com o noivo, ela esconde as lágrimas. Neste momento, distraída com os afazeres, Amélia descuida-se do vestido. Os olhos de Horácio vão imediatamente em direção aos pés da menina, e quando os vê, ele estremece: era o aleijão. Passados alguns minutos, a moça sai da sala e Horácio aproveita para ir embora. Caminhando em direção a sua casa, porém, o homem encontra o futuro sogro, que o faz retornar à residência de Amélia.

Horácio sabia que precisava de um motivo para acabar com o noivado, e em nova conversa com Amélia, propositalmente, implica com suas visitas às reuniões na casa de D. Celestina. Também insatisfeita, Amélia afirma que não deixaria de frequentar as festas. O bate-boca entre o casal é o suficiente para o rompimento do noivado.

Algum tempo depois a moça encontra Leopoldo na casa de D. Celestina. Aproveitando a oportunidade, ela conta ao rapaz sobre a história que ouvira no baile. Já apaixonada por Leopoldo, corresponde ao amor do homem e confessa que sempre sentiu carinho por ele.

Horácio, por sua vez, ainda apaixonado pelos pés a que pertenciam aquelas botinas, vai atrás de Laura, crente de que ela era a verdadeira dona dos sapatos, ainda mais por ter visto Amélia bordar pantufas com a letra “L” para uma amiga – para ele, a presenteada só poderia ser Laura. Ao encontrá-la, o rapaz se ajoelha a seus pés e se declara. Ao beijar os pés da jovem, porém, vê que também não era Laura a dona dos lindos pezinhos. Neste momento, Horácio percebe que poderia ter cometido um engano ao terminar o noivado com Amélia, já que tinha visto rapidamente apenas um pé da moça.

Dias depois os ex-noivos se encontram no centro da cidade. Horácio, ainda sustentando a dúvida, não tira os olhos dos pés de Amélia, que, reparando a curiosidade de Horácio, ergue o vestido mostrando ter lindos pés, os tão sonhados por ele. Amélia havia decidido colocar Horácio à prova logo que descobrira que o noivado tinha sido motivado por seus pés. Foi então que vestiu as botinas monstruosas de sua prima, o que provocou o horror em Horácio.

As primas sempre tiveram restrições aos pés: Amélia sempre teve pés pequenos, já os de Laura eram enormes. Certo dia, Amélia quis compará-los, o que acabou provocando muita vergonha em Laura. Arrependida, a moça quis se redimir. Encontrou, então, um sapateiro que conseguia fazer sapatos que escondessem os pés feios de sua prima.

Sem acreditar ter perdido Amélia, Horácio segue para a casa da jovem com o objetivo de reconquistá-la. Chegando ao local, vê pouca iluminação e sobe em uma árvore para descobrir o que estava acontecendo. O rapaz, então, se surpreende com a cena: Amélia e seu amigo Leopoldo estão ajoelhados à frente de um padre, e ele constata se tratar de um casamento.

Antes que as janelas fossem fechadas, Horácio vê Amélia entregando a Leopoldo as pantufas com a letra “L” e percebe que aquele presente não pertencia a Laura, e sim a Leopoldo, que finalmente vê os lindos pezinhos de Cinderela de sua amada. Já a Horácio resta voltar para sua casa e ler a fábula do leão amoroso que foi pisado pela pata da Gazela.