A Cidade Sitiada

Romance de Clarice Lispector publicado em 1949, A Cidade Sitiada é narrado em terceira pessoa e marcado pela simplicidade do enredo. Dividido em doze capítulos, segundo a própria autora, foi um dos livros mais difíceis que escreveu, talvez porque Clarice tenha levado ao máximo o paradoxo de desumanizar seus personagens para torná-los mais humanos.

Moradora de São Geraldo – um subúrbio que, aos poucos, acompanhou a modernização -, Lucrécia morava com a mãe, D. Ana, uma senhora viúva que não tinha uma boa convivência com a filha. O local era rodeado por uma grande quantidade de cavalos e galinhas. O cheiro que predominava era o aroma do campo. “Essa era a noite de São Geraldo, os flancos de um cavalo percorridos por rápida contração. Nos primeiros silêncios, uma égua esgazeava o olho como se estivesse rodeada pela eternidade”.

Lucrécia era uma moça magra, alta e apresentava manchas na pele devido ao sol. Tinha uma personalidade fria e também ingênua. “Sua futilidade era um despojamento severo, e quando ela estivesse pronta, pareceria um objeto”. Mãe e filha não viviam no luxo, mas sempre tiveram como sobreviver.

Lucrécia namorava Felipe, um rapaz que fazia parte da cavalaria e tinha o biótipo que impressionava a garota. Ela adorava homens do exército e que carregavam armas. Porém, Lucrécia tinha outro pretendente. Ela se encontrava com Perseu, um jovem muito bonito que demonstrava gostar da menina. Ele a achava maravilhosa, no entanto, Lucrécia o via apenas como educado, belo e fraco, já que quem dava as coordenadas na relação era ela.

Certo dia, Lucrécia negou a Felipe um beijo. Contrariado, ele ofendeu seu subúrbio, o que provocou o rompimento entre o casal. O homem, apesar de ter as características que Lucrécia procurava, não pertencia a São Geraldo. Tempos depois ela também rompeu com Perseu.

Surgiu então na vida da garota um homem rico que morava na metrópole. Tratava-se de Mateus, rapaz que fazia visitas constantes à casa de D. Ana com o objetivo de conquistar Lucrécia. Como a mulher não era mais tão novata e já estava com idade para casar, acabou aceitando o convite de Mateus e virou sua esposa, indo morar na cidade grande.

Já na metrópole o casal se instalou em um hotel. Lucrécia não conseguia fazer amizades e se espantava com o ritmo acelerado da cidade e com as constantes festas. A moça continuava a ver diariamente o movimento do trânsito, a construção de um viaduto, as aranhas fazendo suas teias, os mosquitos. “Lá estava a cidade. Suas possibilidades aterrorizavam. Mas nunca esta as revelou! Só uma ou outra vez um copo se partia. Se ao menos estivesse fora de seus muros. Mas não havia como sitiá-la. Lucrécia Neves estava dentro da cidade”. Mesmo com a dificuldade de se acostumar com a modernidade, ela tinha certeza que amava seu marido. Mateus era um homem bom e muito trabalhador.

Depois de algum tempo, Lucrécia, cansada da vida agitada, decidiu retornar a São Geraldo, tendo seu marido concordado com a ideia. Os dois voltaram à cidade e foram morar na casa que era de D. Ana, já que a senhora havia se mudado para a fazenda de um parente. Ao chegar ao local, Lucrécia notou que muita coisa havia mudado. As fábricas, as ruas asfaltadas e os carros davam a São Geraldo um ar de modernidade. Não se viam mais cavalos e galinhas.

Mateus viajava com frequência, e por esse motivo resolveu deixar a esposa em uma ilha próxima a São Geraldo. Tinha a intenção de ver a mulher ganhar alguns quilos e também se preocupava com sua segurança. Na ilha, Lucrécia acabou revendo um velho conhecido, o Dr. Lucas.

O médico era casado, mas sua mulher vivia em um manicômio. Lucrécia e Lucas muitas vezes faziam caminhadas juntos, e nesses passeios os braços acabavam se tocando. O contato frequente entre o casal acabou despertando a paixão da mulher. Não conseguindo esconder seus sentimentos, Lucrécia acabou se declarando a Lucas. Inicialmente, ele falou que a relação era impossível, mas mesmo com a resistência do homem eles acabaram vivendo um romance.

Dias depois, já em São Geraldo, Lucrécia acabou perdendo o marido. Com a morte de Mateus, arrependeu-se da traição e deu-se conta de que sua vida era realmente muito especial e que a rotina do casamento a deixava feliz.

Viúva, ela continuou a morar no subúrbio que já não tinha mais o jeito de cidade do campo, mas vivia os tempos da modernidade. Lucrécia ainda ficou sabendo que Perseu havia se tornado um médico e tinha virado um homem de atitude. Depois da morte de Mateus, Lucrécia recebeu uma carta de sua mãe. Na correspondência, D. Ana dizia que havia mostrado uma foto sua a um homem de “bom coração”. A novidade deixou Lucrécia feliz, já que a mulher teria o luxo e o prazer de ter dois maridos. Ao final, Lucrécia casou-se novamente e se despediu mais uma vez do subúrbio de São Geraldo.