A Cartomante

Escrito por Machado de Assis, o conto carrega uma visão pessimista da vida, em que o autor abandona o “final feliz” utilizado em boa parte dos romances da época. A história se passa em 1869 e tem como eixo central o triângulo amoroso em que se envolvem o funcionário público Camilo, o magistrado Vilela e sua esposa Rita.

Durante muito tempo, Camilo manteve uma relação de amizade com Vilela e Rita. No entanto, com a ausência de Vilela e a morte da mãe de Camilo, o funcionário público e Rita acabam se aproximando, o que faz surgir um sentimento mais forte entre os dois. Camilo tenta fugir, mas não consegue. Como uma “serpente” – assim descreve o autor -, Rita envolve o amigo e os dois se tornam amantes.

Certo dia, Camilo recebe uma carta anônima relatando a traição. Preocupado, ele resolve se afastar de Rita e passa a frequentar cada vez menos a casa de Vilela, o que deixa sua amante bastante angustiada. Rita, então, procura uma cartomante para saber se Camilo ainda a ama.

Na narrativa, a cartomante é caracterizada como uma charlatã. Quarenta anos, italiana, morena, magra, de olhos grandes. O nome não é revelado na obra.
Ao saber da consulta, Camilo zomba de Rita, que responde:

– Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: ‘A senhora gosta de uma pessoa…’ Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade…

– Errou! Interrompeu Camilo, rindo.

– Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria…

Camilo se nega a acreditar nos “poderes” da cartomante e desaconselha Rita a procurar o serviço. Ele jura à amante que lhe quer muito, e diz a ela que o procure sempre que tiver algum receio, pois “a melhor cartomante é ele mesmo”.

Algum tempo depois, Vilela começa a se mostrar mais sério. Pouco fala. Nervosa com a atitude do marido, Rita corre para contar ao amante e aconselha-o a procurar novamente por Vilela. Camilo, porém, diverge da opinião de Rita, afirmando que não faz sentido aparecer depois de tanto tempo.

Passados alguns dias, Vilela envia um bilhete a Camilo convocando-o a comparecer em sua casa. No papel, havia apenas uma frase: “Vem já, já”. Ele logo imagina que Vilela havia descoberto a traição. Ainda confuso, atende ao pedido do amigo e vai até sua residência.

No meio do caminho, Camilo fica preso no trânsito em função de um acidente. Por ironia do destino, seu carro pára bem ao lado da casa da cartomante que Rita visitara e ele resolve consultá-la.

– Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto…

Maravilhado, Camilo faz um gesto afirmativo.

– E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não…

– A mim e a ela, explicou vivamente ele.

Ao consultar as cartas, a cartomante diz a Camilo que não precisa temer, pois Vilela desconhece a traição e continuará feliz ao lado de Rita. Aliviado, ele segue até a casa do amigo. Chegando lá, empurra a porta de ferro do jardim e entra. A casa parece silenciosa. Camilo sobe os seis degraus de pedra e mal tem tempo de bater na porta – Vilela logo aparece, com o rosto desfigurado de raiva. Camilo vê o corpo de Rita sobre o sofá e percebe que será a próxima vítima. De fato, ele é morto à queima-roupa pelo amigo de infância, que, sabendo da traição, o esperava de arma em punho.

Durante o conto, o autor tenta mostrar o misticismo como o fator principal do enredo, levando o leitor a acreditar que a cartomante realmente acertaria suas previsões e que um final feliz viria para Rita e Camilo, mas não é o que ocorre. Há, no enredo, uma ironia entre o desenrolar da história e seu triste final.