Conheça Carolina Maria de Jesus, mulher, negra e autora de “Quarto de Despejo”

Mulher, negra e escritora. Carolina Maria de Jesus, mãe solteira, sustentou seus três filhos como catadora de papéis durante mais de uma década. A autora negra, uma das primeiras a ter seu trabalho publicado no Brasil, teve a obra Quarto de Despejo traduzida em 16 idiomas desde 1960, data de lançamento da sua obra de estreia. Ao todo, ela assina 10 livros, entre diários, poemas, romances e textos curtos.

Quarto de Despejo é uma das leituras obrigatórias do vestibular 2019 da UFRGS. E, argumentam críticos, deveria ser leitura para a vida.

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Diário de uma favelada

“Diário de uma favelada”, subtítulo da obra de Carolina Maria de Jesus, indica ao leitor, já na capa, a principal temática do livro. Em cadernos que encontrava entre os papéis que recolhia, a escritora registrava a vida da comunidade de Canindé, favela na Zona Norte de São Paulo.

“Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos”, descreve a autora. A visceralidade poética com que expõe a violência, as condições de vida, o alcoolismo e a fome são marcas de seu testemunho escrito. Para Carolina Maria de Jesus, a fome é a escravidão dos tempos modernos.

Escolarizada até o segundo ano do Ensino Fundamental, Carolina Maria de Jesus caracteriza sua vizinhança como “tétrica”, um “recanto dos vencidos”, “depósito de incultos”. Em 1947, quando chegou à comunidade, as favelas eram fenômeno ainda recente nos grandes centros urbanos como São Paulo. Os moradores da região, à época, somavam cerca de 50 mil — em 2010, na capital e região metropolitana, eles chegavam a 2,1 milhões, segundo o IBGE.

A periferia em pauta

Quarto de Despejo foi editado com a ajuda do jornalista Audálio Dantas, que teria feito algumas “adequações” à linguagem, sem alterar a voz da autora. O livro esgotou a tiragem inicial de 10 mil cópias e ganhou edições em países da Europa e nos Estados Unidos, chegando ao topo da lista de mais vendidos.

O relato é cru, descritivo, traduzindo a naturalização de certas situações aos olhos dos habitantes do Canindé. A realidade da periferia é vista com olhos que vivem a periferia, com a perspectiva de quem está de fato inserido no contexto.

Alguns críticos indicam que nenhuma outra obra à época conseguia delinear a realidade da favela como Carolina Maria de Jesus conseguiu. Apontam que a autora, em seus diários, ao mesmo tempo em que se sabia parte do ambiente, acreditava não pertencer a ele. Ao descrever a vizinhança, fica marcada a falta de perspectiva comum no local, em contraposição à crença da escritora de que ela alçaria outros voos.

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Feminismo e movimento negro

Carolina Maria de Jesus é um dos ícones dos movimentos negro e de igualdade de gênero. A descrição detalhada e crua da realidade de ambos os grupos em sua obra, bem como a relevância da autora nos cenários nacional e internacional, contribuem para esse papel.

Nem mulher, nem negras(os), nem “favelada(os)” tinham (ou têm) muito espaço em ambientes tidos como de prestígio, como o da Literatura. Carolina Maria de Jesus desafiou esses paradigmas ao conquistar espaço entre os best sellers globais.

A sua vida, bem como a das demais mulheres descritas em Quarto de Despejo, é repleta de fome e violência, de maridos embriagados e abusadores. Ainda que seja colocada uma distância entre a autora e as vizinhas, a descrição reflete em partes a expectativa dupla da sociedade sobre o papel da mulher.

“Ideias literárias”

Carolina Maria de Jesus incansavelmente manifesta em Quarto de Despejo que sua vontade de escrever era de certo modo incontrolável. As “ideias literárias”, como as descreve, invadiam-lhe a mente.

Por outro lado, esse “pensamento poético” era onde a autora encontrava descanso da realidade bruta e cheia de fome que a cercava. Seu convívio com “analfabetos”, como mais de uma vez descreve os vizinhos da favela, não era amigável, em partes porque eles a excluíam em função de andar sempre a escrever.

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O vocabulário que Carolina Maria de Jesus usava, em seu meio, também era mal visto, tido como arrogância. Para ela, era português “clássico”, correto. E, tanto como eles a tinham por esnobe pelo falar “elevado”, ela também parece buscar nessa “elevação” da língua uma forma de se colocar acima da realidade em que se encontrava. Em seu testemunho, a autora busca uma linguagem oral, cotidiana, porém distante do português “errado” da comunidade em que vivia.

Na prova

As questões de prova tendem a buscar, do ponto de vista de gênero literário, o fato de que Quarto de Despejo é um diário, um testemunho. Disso se depreende que a autora é também a narradora.

Provas em que a Literatura é cobrada junto com a Língua Portuguesa ainda podem usar trechos da obra para comparar a linguagem oral, ou falada, com a escrita, ou normativa padrão (dita “culta”). É importante, nesses casos, observar as relações de coordenação/subordinação e a concordância.

No âmbito da narrativa, é a realidade da favela que costuma receber os holofotes dos exames. Aqui, as condições de vida, a fome e a violência podem ser usados com paralelos para outras obras (clássicas ou obrigatórias da prova), ou mesmo com notícias de jornal e relatos atuais.

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Biografia

A favela do Canindé, Zona Norte de São Paulo, foi onde a mineira Carolina Maria de Jesus, nascida em 1914 de pais analfabetos, instalou-se após da mudança de Bitita do Sacramento (MG) para a “cidade grande”. Construiu a casa com as próprias mãos, usando os materiais que tinha à disposição: madeira, papelão, lata.

Com a publicação de Quatro de Despejo, a escritora conseguiu melhorar de vida, mudando-se para uma região de classe média de São Paulo. Mais tarde, mudou-se para outro bairro, no extremo sul da cidade, vivendo numa casa simples. Era a forma de se aproximar da quietude do interior mineiro, onde nascera e crescera, sem ficar longe das escolas onde os filhos estudaram.

A autora mineira não obteve o mesmo sucesso de venda com as obras que vieram depois de Quarto de Despejo. Em parte, porque a escritora se colocava publicamente como socialista, fã de Fidel Castro. E, em tempos de Ditadura Militar, isso não era visto com bons olhos. Ainda assim, escreveu até morrer, em 1977.

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