Material de apoio: Modernismo – contexto, características e primeira fase modernista

No início do século XX, a cidade de São Paulo passava por uma série de transformações proporcionadas pelos lucros advindos da exportação do café e por todas as suas consequências sociais: intensa imigração, desenvolvimento industrial e urbano, movimentos operários, etc. Apesar do conservadorismo paulistano, alguns artistas começaram a se interessar pelas vanguardas europeias, que rompiam com o passado cultural tradicionalista e defendiam a liberdade de criação, mostrando-se mais adequadas ao dinamismo dos novos tempos vividos em São Paulo.

No ano de 1917, a pintora Anita Malfatti, que acabara de retornar da Europa, onde havia ficado por duas temporadas estudando, organizou uma exposição onde apresentou suas telas de tendências expressionistas e cubistas. O evento, que ficou conhecido como “Incidente Anita Malfatti”, chocou o público e os críticos acostumados com a pintura acadêmica, tendo sido atacada por diversos artistas, inclusive Monteiro Lobato, que, no artigo intitulado Paranóia ou mistificação?, comparou as telas de Anita à pintura feita em paredes de um hospício. A partir desse fato, um grupo de artistas que compartilhava o gosto estético de Anita Malfatti se reuniu para apoiá-la, dando início aos preparativos para a Semana de Arte Moderna (SAM).

Além da exposição de Anita Malfatti, outros acontecimentos foram consolidando as propostas modernistas e preparando o panorama artístico para a realização da SAM, como o retorno de Oswald de Andrade da Europa, entusiasmado com o Manifesto Futurista de Marinetti (1912); a aproximação entre Oswald de Andrade e Mário de Andrade; a exposição de caricaturas de Di Cavalcanti; a publicação de Juca Mulato, de Menotti Del Picchia, e A cinza das horas, de Manuel Bandeira, em 1917; a publicação de Carnaval e do poema Os sapos, também de Manuel Bandeira, em 1919; a publicação de Mestres do passado, série de artigos de Mário de Andrade com crítica aos poetas parnasianos (1921), e de Pauliceia desvairada, do mesmo autor, cujo Prefácio interessantíssimo lançou as bases estéticas do Modernismo (1922).

Em fevereiro de 1922, então, organizada por Oswald de Andrade e Mário de Andrade, aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo a Semana de Arte Moderna (SAM). O evento surgiu a partir da ideia de Di Cavalcanti de reunir em um mesmo local, no centenário da independência política do Brasil, as várias manifestações artísticas que estavam surgindo, e foi financiado pelos barões do café.

A SAM trouxe para o Brasil tendências que já haviam aparecido na Europa no final do século XIX, tinha por objetivo propor a modernização da arte brasileira e representou oficialmente o marco inicial do Modernismo no país. O evento ocorreu com a apresentação de conferências, exposição de telas e esculturas, leitura de poemas, dança e música. Participaram do evento os pintores Di Cavalcanti e Anita Malfatti, o maestro e compositor Heitor Villa-Lobos, o escultor Vitor Brecheret, entre outros.

Graça Aranha foi o orador da primeira noite, com o texto O espírito moderno, e Menotti Del Picchia, da segunda, com A arte moderna. Nesta segunda noite, Ronald de Carvalho leu o poema Os sapos, de Manuel Bandeira, o que representou uma verdadeira afronta aos parnasianos (comparados aos sapos no texto de Bandeira), provocando muitas vaias e a saída de grande parte do público. No terceiro dia, Villa-Lobos se apresentou de chinelos em razão de uma crise de gota (excesso de ácido úrico no sangue), que o impedia de calçar sapatos fechados. O público, já bastante reduzido, desconhecendo os motivos do artista, interpretou o fato como mais uma forma de protesto dos modernistas.

Entre as características mais marcantes do Modernismo podem ser destacados o repúdio ao Parnasianismo; a espontaneidade criativa, marcada pelo verso livre; o antigramaticalismo, isto é, o aproveitamento da riqueza da língua nacional, com a liberdade até mesmo de transgressões ortográficas; o afastamento entre o belo artístico e o belo natural (considerando-se o primeiro tanto mais rico quanto mais afastado do segudo); síntese e bom humor; nacionalismo crítico; e utilização de paródias.

 

Primeira fase ou Geração de 22 (1922-1930)

A década de 1920 ficou conhecida como “anos loucos”, dada a efervescência cultural provocada pela difusão das vanguardas europeias, e essa primeira fase do Modernismo ficou caracterizada exatamente pela tentativa de consolidação dos novos ideais defendidos por esses movimentos de vanguarda. Vanguardista, combativa, revolucionária e experimentalista, a Geração de 22 defendia uma reconstrução da cultura brasileira a partir de bases nacionais, sendo fortemente marcada pelo nacionalismo crítico.

Nessa fase, em que houve um predomínio da poesia, ganharam destaque algumas revistas lançadas para divulgar as propostas modernistas, a saber:

  • Klaxon (1922-1923, SP): Primeiro órgão do movimento modernista, foi lançada pelos responsáveis pela Semana de Arte Moderna.
  • A Revista (1925-1926, MG): Responsável pela divulgação do movimento em Minas Gerais, tinha como principal redator Carlos Drummond de Andrade.
  • Festa (1927, RJ): Reuniu o grupo “espiritualista”, que oscilava entre propostas simbolistas e modernistas, do qual participaram, entre outros, Cecília Meireles e Murilo Mendes.
  • Revista de Antropofagia (1928-1929, SP): Tinha como principais redatores e responsáveis Oswald de Andrade, Alcântara Machado, Raul Bopp e Tarsila do Amaral.

Surgiram também alguns grupos culturais, que expressaram de diferentes formas o nacionalismo típico do Modernismo, entre os quais se destacaram:

  • Pau-Brasil (1924, SP): Pregava a necessidade de integração das vertentes primitiva e erudita da cultura brasileira. Destaque para o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, de Oswald de Andrade.
  • Verde-Amarelo (1926, SP): Defendia o nacionalismo primitivista e ufanista. Lideraram esse grupo, entre outros, Menotti Del Picchia e Plínio Salgado.
  • Escola da Anta (1927, SP): Retomando o primitivismo xenófobo do grupo Verde-Amarelo, os membros da Escola da Anta elegeram o índio tupi e a anta como símbolos da nacionalidade.
  • Antropofagia (1928, SP): Continuação do grupo Pau-Brasil, propôs a incorporação das qualidades da cultura estrangeira, sem que se perdesse a identidade cultural brasileira. Contrariando correntes modernistas que rejeitavam qualquer influência cultural estrangeira, fazendo uma analogia aos rituais antropofágicos indígenas, Oswald de Andrade afirmava que era preciso “devorar” a cultura estrangeira e incorporar as suas qualidades para robustecer a cultura nacional.

Embora cada grupo apresentasse características próprias, eles tinham muitas características em comum, típicas do Modernismo, como o direito à pesquisa estética; a liberdade formal e temática; valorização da linguagem coloquial e do cotidiano; preferência por temas atuais; nacionalismo crítico; ruptura com o passado; estabilização de uma consciência criadora nacional; senso de humor; tematização da civilização tecnológica; teor anárquico, destruidor e iconoclasta; e períodos curtos.

Entre os autores dessa primeira geração merecem destaque os seguintes nomes:

  • Oswald de Andrade: Um dos escritores mais dinâmicos e controvertidos do Modernismo, polêmico e revolucionário, foi jornalista, poeta, romancista e teatrólogo. Recuperando textos dos cronistas portugueses do século XVI, reelaborou-os para criar poemas de caráter intertextual, adotando um procedimento paródico semelhante aos ready-mades dos dadaístas, que tiravam objetos de seu contexto natural para dar-lhes um novo sentido. Exemplo desse procedimento é o poema As meninas da gare, elaborado a partir da Carta de Pero Vaz de Caminha.
    Com uma linguagem bastante depurada, Oswald de Andrade escreveu textos poéticos brevíssimos, denominados poemas pílula, em que eliminou o verbalismo exagerado e apresentou frases marcadas pela omissão de termos, fragmentando completamente a linguagem escrita (técnica inspirada no Cubismo). Em 1924 o escritor publicou Memórias sentimentais de João Miramar, que, apesar de ser um texto mais longo, apresentava também certa fragmentação, na medida em que continha capítulos bem reduzidos, denominados capítulos-flash.
    Entre suas poesias, destacam-se Pau-Brasil, O escaravelho de ouro e Primeiro caderno do aluno de poesia, Oswald de Andrade. Já entre os romances merece destaque, além de Memórias sentimentais de João Miramar, a obra Serafim Ponte Grande; e entre as peças teatrais, O rei da vela.
  • Mário de Andrade: Um dos principais articuladores da Semana de Arte Moderna, Mário de Andrade foi poeta, contista, romancista, crítico literário e teórico da literatura. Adotava em suas obras temática nacionalista, sociocultural e lírico-amorosa. Entre seus livros de poemas destacam-se Paulicéia desvairada (no qual se encontra o manifesta literário Prefácio interessantíssimo), Lira Paulistana e Clã do Jabuti. Entre seus livros de contos merecem destaque Primeiro amor, Os contos de Belezarte e Contos novos; e entre os romances, Macunaíma (considerado uma das obras-primas do Modernismo) e Amar, verbo intransitivo.
  • Manuel Bandeira: Um dos mais importantes poetas do Modernismo, adotava como temática a infância, o amor e a mulher amada, o sofrimento, a proximidade da morte, o cotidiano e a própria poesia. Pode-se perceber que o autor promoveu um resgate de temas românticos, mas atribuiu a esses temas um registro modernista. Tinha um estilo livre, com linguagem coloquial e grande domínio da versificação.
    Entre suas obras, destacam-se Libertinagem, A cinza das horas, Estrela da manhã, Estrela da tarde, O ritmo dissoluto, Belo belo e Vou-me embora pra Pasárgada, que se transformou em um de seus poemas mais conhecidos. Em uma das seções de Estrela da tarde, denominada Composições, Manuel Bandeira apresentou poemas formados a partir da distribuição de palavras no papel, seguindo na linha da poesia concreta.
  • Cecília Meireles: Escritora de tendência intimista e linguagem musical e metafórica, Cecília Meireles também é enquadrada na segunda geração modernista. Entre suas obras, destacam-se Romanceiro da Inconfidência (romance épico que aborda a saga dos inconfidentes mineiros), Viagem, Mar absoluto Solombra.
  • Menotti Del Picchia: Ligado ao grupo verde-amarelo, escreveu o poema regionalista Juca Mulato.

Entre os autores dessa primeira geração, merecem destaque, ainda, Alcântara Machado, Cassiano Ricardo, Raul Bopp, Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida.